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Marcelo Rezende

O “Contador de Histórias”
Fábio Davidson (junho/2004)

O frio era de matar... Mas, enquanto um “fog londrino” caia fora do auditório, dentro o clima esquentava. Foram mais de duas horas de bate-papo e, para quem estava quase que totalmente afônico, a voz só apareceu para revelar aquele que gosta de “contar histórias”. Está é, na opinião de Marcelo Rezende, a função do repórter. Uma das muitas opiniões – para uns, “ácidas”, para outros, “sinceras” –, daquele que entrou no jornalismo por acaso, graças a uma visita à redação do “Jornal dos Sports”, em 1969, no Rio de Janeiro. Nessa época, tinha 17 anos, era estudante de mecânica e visitava um primo que ali trabalhava.
A “visita” já dura 35 anos!!! Em 1970, tornou-se repórter esportivo na Rádio Globo, depois passou pelo jornal “O Globo” e pela revista “Placar”. Ainda na área de esportes, tornou-se editor na TV Globo, em 1987. No ano seguinte cobriu a morte do empresário José Carlos Nogueira Diniz, dando início a uma série de reportagens investigativas. Quem não se lembra do caso dos policiais da Favela Naval, do seqüestro de Roberto Medina, da investigação sobre a Comissão Nacional de Arbitragem (caso Ives Mendes), da máfia dos CDs piratas na China, do desvio de verbas na CBF ou da entrevista exclusiva para o “Fantástico”, com o “Maníaco do Parque”? Esta última, como Rezende contou durante o bate-papo promovido pelo Ijor (Instituto Livre de Jornalismo), foi o embrião para o programa “Linha Direta”, na Rede Globo. Depois de sair da Globo, o jornalista passou pela Rede TV e desde 1º de março deste ano apresenta o telejornal “Cidade Alerta”, na Rede Record.
Oito e meia da noite e Marcelo Rezende já avisa que não sabe se vai agüentar muito tempo. É fácil notar a sua falta de voz. Mas depois que começa a falar, não para mais. Toma os goles de água como se municiasse uma metralhadora. Inicia com uma “boa notícia” para os estudantes de jornalismo: “O emprego mais fácil de conseguir é o de repórter de televisão!”. O ar de surpresa é geral. Ele explica: “Não há bons repórteres na televisão, são raros. A TV quer jovens com boa aparência. [E] os repórteres querem buscar o impacto, o reconhecimento, não buscam mais gerar um vínculo”.
Marcelo Rezende credita sua audiência na “nova casa” à sua credibilidade, pois crê que o público o acompanhe por acreditar em seu passado como repórter que investiga, “vai a fundo’, ao contrário dos novos repórteres, que “querem tudo pronto, se acham importantes não pelo que fazem, mas pelo tempo de casa que têm”. Tal atitude faz com que se crie um egocentrismo exacerbado, fazendo até com que menosprezem os companheiros. “O ego na televisão não comporta o espaço físico”, diz Rezende, que afirma estar na sua humildade um dos segredos sucesso não subir na sua cabeça.
Outra observação feita pelo apresentador do “Cidade Alerta” foi a de que “o Jornal Nacional só dá audiência na Globo. Se fosse colocado na Record, não dá nem 5 pontos”. Segundo ele, a Record tem nível técnico comparável com a Globo, mas o diferencial não está na linha editorial. “O grande problema é que os repórteres não buscam as notícias nas ruas, ficam esperando elas chegarem pelas diversas vias que existem atualmente. Aí fica tudo igual! Faltam na TV dois tipos de visão. O 'garimpeiro' e o 'ourives.” Marcelo refere-se às formas de se ver uma notícia. O garimpeiro seria aquele que vai investigar, procurar, enquanto que o ourives vai lapidar a notícia, mostrar sua beleza ao público (e aqui não se deve entender camuflar, mas revelar).
Ainda com relação ao ego que nasce naqueles que conseguem entrar na TV, o jornalista recorda-se que “para que os repórteres entendessem a necessidade de se fazer uma pauta, tive que demitir dois”, quando trabalhava na Rede TV. Nestes três meses que está na Rede Record, afirma que não viu sair das mãos dos repórteres mais do que quatro pautas.
Marcelo Rezende acredita que o jornalismo de televisão está velho, cansado. Afirma que suas reportagens levavam de 3 a 8 meses de investigação, em média. Depois, o segredo estava em “como contar a história. O jornalista é um contador de histórias”. Mas diagnostica: há uma carência de bons profissionais e de uma diferenciação na linguagem. Perguntado sobre a “guerra da audiência” entre a Record e a Band, que possuem telejornais em formatos semelhantes (além do mais, o apresentador da Band é o antigo apresentador da Record...), Rezende respondeu: “Você pode ter um adversário, mas não um inimigo”. Um exemplo que lhe foi fornecido foi uma “briga” ao vivo entre a repórter Patrícia Calderón (Record) e Edie Pólo (Band), na sexta-feira depois do feriado de Corpus Christie, na busca de declarações de um limpador de fachadas que ficou preso na lateral de um prédio em São Paulo. O apresentador do “Cidade Alerta” mandou parar a entrevista e cortar para o estúdio, além de “passar um pito” na repórter de sua emissora “no ar”, fato, aliás, recorrente em suas apresentações. “Neste caso”, diz ele, “o repórter da outra emissora chegou primeiro e preparou a entrevista. Cabia à nossa repórter aguardar. Por isso mandei parar. (...) Estou casado disso. Disputa-se a mesma coisa para não levar a lugar nenhum.”
Já eram quase onze horas da noite. A voz do apresentador não respondia mais. “Acho que não vou trabalhar amanhã...”. Assim encerrou-se mais um dos “Encontros com Repórteres”, no último dia 15 de junho, no auditório do SENAC da Rua Scipião, na Lapa. O evento é uma parceria do Centro de Comunicação e Artes do SENAC com o Ijor – Instituto Livre de Jornalismo. Mais informações: http://www1.sp.senac.br/hotsites/cca/ijor/index.htm ou pelo telefone (11) 3866-2500.

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