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Uma charge fala mais do mil matérias


Os chargistas às vezes são mais eficazes em seus traços do que os jornalistas em suas palavras. Um exemplo é o Fernandes, ilustrador do Diário do Grande ABC, retratado na edição 270 da Revista Imprensa (seção Traço). E você? Qual seu ilustrador - de jornal impresso ou revista - favorito?

Ficção, realidade e manipulação

RELIGIÃO, RÁDIO E TV
Sobre pastores e astrólogos
Por Ulisses Capozzoli em 15/08/2011 na edição 655
Num seminário recente, no Rio, ouvi o relato de um dos componentes da mesa sobre a reação de parte de crianças à ideia de o universo ter a idade aproximada de 14 bilhões de anos, informação que os jornais divulgam quase diariamente. Essas crianças, que frequentam determinado espaço dedicado à ciência – influenciadas pelo criacionismo e interpretações fundamentalistas religiosas do mundo – segundo o palestrante, sorriem com desdém sobre a científica idade do cosmos.

Isso significa que, antes de estarem criticamente maduras para uma apreciação sensível, inteligente e promissora da natureza, estão mentalmente dominadas pelo dogmatismo de fundo religioso que ameaça retroceder o pensamento a uma repugnante idade das trevas. E o mais desconcertante: o palestrante diz que “respeita esse tipo de interpretação”.

Isso não seria paradoxal se, um par de minutos depois, ele não exibisse uma arte das constelações zodiacais e, em seguida, fizesse provocativas críticas à astrologia. A questão aqui é a seguinte: se ele aceita ideias arcaicas e sem sentido, promessas despudoradamente falsas e “milagres” deslavadamente mentirosos que uma legião de “pastores” propaga diuturnamente em programas de rádio e TV, por que criar caso com a astrologia?

A resposta, a meu ver, é simples e direta: covardia e ausência de integridade científica. Não estou acusando uma pessoa em particular – isso não faria sentido. Estou me referindo a uma tendência, visível a olho nu, de se “respeitar” farsas que são verdadeiros casos de polícia, envolvendo estelionato, entre outros crimes, mas ao mesmo tempo não perdoar astrólogos.    (Leia na íntegra)

Capa(s) da Semana
A vitória que levou a seleção brasileira à final da Copa sub-20 na quarta-feira à noite, foi destaque em praticamente todos os jornais mexicanos, mesmo com o time local derrotado, a exemplo do Reforma:
No Brasil, então, a mesma coisa aconteceu, não é? Errado. Em consulta ao Newseum, só um jornal tupiniquim deu grande destaque na primeira página: O Diário do Pará (abaixo). Será que estamos virando um país sério, onde a preocupação maior é a política, economia e a sociedade? Não sei porque, mas lembrei de uma antiga música, que dizia: "Sonho meu, sonho meu"...

De Piauí a Berlim

Durante muito tempo a revista CarosAmigos era uma das principais vozes do jornalismo de esquerda. Denúncias reverberavam pelas linhas escritas por jornalistas competentes e capitaneadas pelo grande Sérgio de Souza. Com a morte deste, em 2008, o coração da revista parou de bater.
Agora, no quesito repercussão, começa a tomar espaço a revista Piauí. O mais interessante é que esta revista foi idealizada em 2006 pelo documentarista carioca João Moreira Salles, conta com a direção do jornalista Mario Sergio Conti e tem por princípio ser um espaço do chamado new journalism, estilo imortalizado por Trumam Capote, Gay Talese,Tom Wolfe, que mais do que divulgar uma notícia, preferiam contar uma história. No espaço resumido dos periódicos, isso era quase impossível, o que só ganhava espaço em revistas ou mesmo em livros-reportagem. Atualmente, o sítio da Piauí está abrigado no Grupo Estado, que destaca: "(...) depois de passar por outros portais na internet, a direção da Piauí buscava um endereço que tivesse o mesmo espírito editorial da publicação, voltada para temas de interesse geral e pautada por grandes reportagens, para abrigar o seu site. Procuraram o Grupo Estado por ver similaridade na postura editorial".
Enfim, em um país onde partidos não têm identidade - nem compromisso ético - não há que se falar mais em esquerda ou direita. Nem em jornalismo de oposição. Talvez, seja até melhor. Afinal, o compromisso do jornalismo não deve ser com uma ou outra bandeira, mas, sim, com o interesse público. Mas, por enquanto, como diz a música: "Alguma coisa está fora da ordem"...


Revista que derrubou ministro se esgota nas bancas em quatro dias
Daniela Ades* | 11/08/2011 12:45

Apesar de esperada, a repercussão da última edição da revista Piauí (59), lançada na última sexta-feira (5), fez com que os 58 mil exemplares distribuídos nas bancas se esgotassem em quatro dias e uma nova remessa de 15 mil exemplares fosse encomendada às pressas.
Pela segunda vez consecutiva, a revista publicou matérias polêmicas que repercutiram amplamente na mídia. Na edição passada (58), a Piauí trouxe um polêmico perfil do presidente da CBF, Ricardo Teixeira. Após a reportagem, um movimento na internet pediu a saída do cartola da entidade.
Nesta edição (59), a reportagem de Consuelo Dieguez revelou comentários do ex-ministro da Defesa, Nelson Jobim, criticando colegas de governo. Sua fala, antecipada pela Folha de S.Paulo na quinta-feira (4), reverberou na imprensa e culminou no afastamento de Jobim do cargo pela presidente Dilma Rousseff.
(Leia na íntegra - Revista Imprensa)

Capa da Semana
E esta semana o Brasil foi matéria de primeira página em diversos jornais alemães. O assunto não era economia, turismo ou política, mas sim, o vexame canarinho no jogo amistoso. O que chamou a minha atenção no jornal Passauer Neue Presse, foi a manchete da notícia logo abaixo da chamada para o destaque esportivo. À primeira vista, o pensamento foi inevitável: Será que os jornalistas alemães estariam xingando o técnico brasileiro???

Jornalismo fake

Na era virtual, divulgar a mentira como verdade é um perigo que nos ronda cada vez mais, acentuado pela precariedade da apuração e checagem nas redações, que sucumbem à velocidade da notícia. Assim, nesta semana muitos usuários do Internet Explorer foram comparados a pessoas com QI (quociente intelectual) mais baixo do que os usuários de outros navegadores. Uma notícia inútil, mas que ganhou manchetes nos principais portais de notícias, como o Terra, Abril, Uol, G1, entre outros. Já escrevi um dia desses que o problema maior não é o erro, mas a falta de uma errata clara. Esta notícia, por exemplo, até ontem à noite continuava acessível e sem nenhuma menção à sua falsidade na maioria dos sites! Aliás, verdade seja dita, o G1 manteve o link da notícia, apagou-a e em seu lugar colocou um link para a matéria que desmente tal pesquisa, onde afirma que "Milhares de serviços de notícias, incluindo o G1, noticiaram a publicação do estudo". No portal da Revista Exame, a matéria permanece e só um leitor atento percebe no "Leia Mais" o desmentido. O mais interessante é que nessa errata (sem nome de errata), fica claro que a descoberta não foi graças à investigação dos jornalistas (antes e muito menos depois de publicada), mas sim dos leitores, como se vê no parágrafo inicial:
Uma investigação, iniciada por leitores do site BBC News, na Inglaterra, apontou inconsistências no registro da empresa AptiQuant, responsável por uma pesquisa que relaciona o uso do Internet Explorer a baixos níveis de QI.

Assim, os jornais terceirizam os fotógrafos, os pauteiros e, agora, até mesmo os checadores das matérias! E me desculpem, chamar isso de modernidade e interatividade é pura ignorância! Mais uma vez, cuidado com o que lê na rede. Afinal, nem nos sites "confiáveis" é possível confiar...

Ainda sobre a qualidade dos periódicos, achei interessante o artigo Fazer jornais, e não baldes de plástico de Eric Pfanner, jornalista do International Herald Tribune, que foi traduzido e publicado no Observatório da Imprensa desta semana:
O autor da carta começa manifestando “um profundo sentimento de angústia em relação aos acontecimentos desagradáveis na empresa que, nós e gerações que nos antecederam, desenvolvemos com muito zelo e dedicação”. “É chocante que alguns dos membros da diretoria quisessem administrar uma instituição jornalística como uma companhia que produz baldes de plástico, com motivos comerciais e práticas aéticas se sobrepondo aos interesses e valores editoriais e, assim, prejudicando a credibilidade do jornal”, prossegue a carta. Essas condições, declara o autor, “tornaram minha permanência como editor insustentável.” (Leia a íntegra aqui)

Capa da Semana
Embora a capa seja do mês passado, nada melhor para ilustrar o assunto acima, do que a última primeira página do centenário e falecido The News of the World (1843-2011), cujo site, atualmente, é um verdadeiro - e triste - epitáfio.

Capa da Semana (126)


Fui procurar uma capa interessante sobre a greve em
Portugal e o que achei? Rio de Janeiro... no Público.

Testumunhas da ética

 LEITURAS DO ESTADÃO
Bioética, fé e transfusões de sangue
Por Celio Levyman

O Estado de S. Paulo deu alguma repercussão a caso que envolve morte de jovem de 13 anos cujos pais não autorizaram transfusão sanguínea e há decisão de Câmara Criminal do Tribunal de Justiça quanto a ser levado a júri ou não o casal.

Não observei o mesmo destaque em demais órgãos de imprensa, o que julgo uma falha, pois é assunto de alta relevância – não especificamente o caso em si, mas a noção da autonomia do paciente, deveres dos médicos, aspectos jurídicos, notadamente constitucionais, e mesmo na prática da profissão médica: não é diariamente que aparecem casos envolvendo transfusões e Testemunhas de Jeová, mas há tempos que isso gera polêmica que extrapola os limites teóricos da discussão intelectual bioética.
(Leia na íntegra no Observatório da Imprensa)

Capa da Semana (125)


Esta, vamos ter que engolir...

Em boas mãos (?)

Se você é daqueles que confiam nos manobristas quando deixa seu carro na porta de um estabelecimento comercial, talvez seja melhor não assistir os vídeos abaixo e continuar acreditando neste conto de fadas. A a reportagem foi feita pela revista ÉPOCA São Paulo.

1ª Parte

2ª Parte

Big Brother

Regular ou não regular a imprensa, o que existe um pouco além do tiroteio verbal
Carlos Castilho 
         
Como em quase tudo nesta vida, a resposta à pergunta regular ou não regular a imprensa não está nos extremos, mas sim entre um polo e outro. O problema é que achar a combinação exata de regulação e desregulação é um exercício complicado que exige diálogo e entendimento, coisas meio raras hoje em dia na imprensa brasileira. (Leia na íntegra, no Observatório da Imprensa)

Capa da Semana (123)

A vitória de Dilma, no Brasil e no mundo:

The New York Times



The Wall Street Journal


Público (Portugal)


Jornal de Notícias (Portugal)


El Pais (Espanha)


La Stampa (Itália)


24 horas (Bulgária)


Standart Daily (Bulgária)


El Universal (Venezuela)


Últimas Noticias (Venezuela)


El Universal (Colômbia)


El Colombiano (Colômbia)



La Patria (Colômbia)


Los Tiempos (Bolívia)


Hoy (Equador)


El Comercio (Peru)


El Mercurio (Chile)


La Nacion (Argentina)


Clarín (Argentina)


O Estado de S. Paulo


Folha de S. Paulo


Correio Braziliense


No resto do Brasil, as primeiras páginas foram mais ou menos iguais, refletindo uma "vitória de Lula" e não de Dilma. Talvez só o Diário de Natal tenha conseguido transmitir essa ideia através de uma manchete bem humorada e o Extra trouxe um pouco da história do país na capa.

Capa da Semana (122)

A morte de um líder sempre comove. Mesmo aos supostos adversários. Mesmo assim, a capa do Clarín foi muito elegante:


Já o chileno Las Últimas Noticias optou pelo lado pessoal, ao invés do lado político, embora a linha que os separasse fosse tênue:


E, de todos, acredito que a foto mais bonita que ilustrou a primeira página foi de El Pais:

Monitorar é censurar?

REGULAÇÃO EM DEBATE
Em busca da discussão qualificada

Por Luiz Egypto em 27/10/2010
Sobre comentário para o programa radiofônico do OI, 27/10/2010

Provocou previsível celeuma na imprensa a aprovação na Assembléia Legislativa do Ceará, na terça-feira (19/10), do projeto indicativo de criação do Conselho Estadual de Comunicação Social com o objetivo de "formular e acompanhar a execução da política estadual de comunicação, exercendo funções consultivas, normativas, fiscalizadoras e deliberativas, respeitando os dispositivos do Capítulo V da Constituição Federal". Outros cinco estados – Piauí, Alagoas, Bahia, São Paulo e Mato Grosso – discutem iniciativas semelhantes, todas oriundas de recomendações da Conferência Nacional de Comunicação, realizada em dezembro de 2009. No caso cearense, para ter efeito, o projeto deve ser acatado pelo Executivo, que em seguida o reencaminhará à Assembléia na forma de projeto de lei. (Leia na íntegra)

Capa da Semana (121)


No segundo round da campanha, Isto É tomou as dores (acima) de Dilma e fez uma nova versão para a capa que Veja levou às bancas na semana passada (abaixo).

Só que desta vez as capas dos principais semanários não foram tão unânimes. As posições Esquerda/Dilma (IstoÉ e CartaCapital) e Direita/Serra (Veja e Época) ficaram bem claras:

Perguntar ofende?

IMPRENSA & PODER
Torcida pelos dois times
Por Carlos Brickmann em 19/10/2010

O candidato oposicionista José Serra já brigou com a colunista Miriam Leitão, de O Globo, por uma pergunta absolutamente pertinente sobre o que acha da autonomia do Banco Central; já brigou com a apresentadora Márcia Peltier, do CNT, acusando-a de fazer perguntas (aliás, totalmente necessárias) formuladas pelo PT. Agora, brigou com um repórter do Valor e acusou o jornal de "cumprir uma pauta petista", por perguntar sobre o caso Paulo Preto. Diante da pergunta, cabe ao entrevistado responder, não especular sobre as razões que levaram o repórter a fazê-la; pode dar uma boa resposta, pode dar uma resposta ruim. Não pode impedir que alguém faça uma pergunta inconveniente – mesmo porque não há perguntas inconvenientes. O que pode haver é uma resposta inconveniente. (Leia aqui, na íntegra)

Capa da Semana (120)

Samba de uma nota só nas capas dos semanários brasileiros (direta ou indiretamente)...




Com diploma ou sem diploma?

Na próxima semana, de 18 a 23 de outubro, a Federação Nacional dos Jornalistas, e seus 31 Sindicatos de Jornalistas filiados realizarão em todo país a Semana Nacional da Comunicação. O encontro ocorrerá em São Paulo, no auditório da Afubesp (rua Direita nº 32, 11º andar). O ato de lançamento será no dia 15 de outubro, às 19 horas. Entre os temas centrais o diploma para jornalistas e a criação do Conselho Nacional de Comunicação. (Saiba mais)

Capa da Semana (119)


O boliviano Los Tiempos não economizou
espaço, nem usou meias palavras.

Falha deles

Em época de discussões sobre a censura na imprensa, tem causado polêmica uma atitude da Folha de S. Paulo em relação a um blog recém-criado com o nome Falha de S. Paulo. Embora no processo o cerne da questão não seja uma censura, mas sim o uso indevido da imagem, não deixa de parecer uma desculpa para eliminar uma crítica. Leia sobre o assunto no Consultor Jurídico, no Comunique-se, no Portal Imprensa, no Boteco Sujo, em OEsquema,

Capa da Semana (118)


O Estado de S. Paulo surpreendeu no último domingo com um editorial - com chamada de capa - tornando público seu apoio ao candidato do PSDB José Serra. Uma atitude madura e louvável. Pena que tenha vindo apenas uma semana antes do primeiro turno das eleições. Não se pode dizer que seja um ato pioneiro na imprensa brasileira, pois a revista CartaCapital já havia declarado, em eleições passadas, seu apoio a Lula.

Partidos, partidarismos e coberturas

COBERTURA ELEITORAL
Doses de ceticismo responsável
Por Alberto Dines em 28/9/2010

Em meio a tantas certezas, tanta exaltação e tanto fanatismo, que tal estas hipotéticas questões: e se o governo e a mídia estiverem igualmente errados?

O que aconteceria se Sócrates ressuscitado descesse de paraquedas na Praça dos Três Poderes, Brasília, DF, para lembrar ao presidente Lula que na sua lapela está sempre a miniatura do brasão da República brasileira e não a de um partido político? E se o pai da filosofia, mártir da liberdade de pensar, se voltasse para o reportariado aglomerado à sua volta e proclamasse que a verdade para ser aceita precisa soar como verdadeira?

Serenariam os ânimos? Uma coisa não deve ser esquecida, bravos guerreiros: o país cansou de rupturas. O vale-tudo, hoje, vale nada. É coisa de "paiséco", republiqueta.

Amarelo e marrom

Quem tem razão é este maravilhoso exemplar da alma latino-americana chamado José Mujica, presidente da República Oriental do Uruguai. Perguntado pelo repórter da Veja (29/9, págs. 19-23) sobre o que deve fazer um governante quando é criticado pela imprensa, ponderou:

"[Deve fazer] Nada. Deve suportar. Se reagir perde duas vezes, porque será atacado de novo. Tem de olhar para o outro lado."

E acrescentou:

        "Jornalistas devem tentar atuar com honra. Depois, cada leitor ou telespectador deve interpretar o que leu ou ouviu. Quanto mais educada e qualificada for a população, maior diversidade haverá de opiniões, o é que muito bom."

E mais:

        "Quando um governo se mostra mais tolerante à diversidade, acaba ajudando a formar uma imprensa respeitosa. Quando radicaliza nas suas políticas, no entanto, aí vai tudo pro diabo. Nesse caso, a imprensa se transforma em uma espada de luta e a coisa fica perigosa."

Sócrates, o filósofo redivivo, teria aplaudido com entusiasmo. Como certamente aprovaria este comentário escrito no Estado de S.Paulo (25/9, pág. A-31) pelo argentino Eduardo Bertoni:

"Os cidadãos estão perdendo a confiança nos meios de comunicação. De um lado, a imprensa é responsável perante o cidadão, motivo pelo qual o estabelecimento de padrões éticos ou profissionais pelo governo deve ser repudiado. Mas, de outra parte, esta perda de confiança beneficia os governos que querem levar à censura ou autocensura.

"Os jornalistas latino-americanos não podem correr o risco de perder a confiança do seu aliado mais natural. Se isso ocorrer, os governos se sentirão livres para agir contra a imprensa. Se essas medidas se consolidarem, não só perderemos um direito fundamental, mas a democracia estará correndo riscos."

Eduardo Bertoni não é jornalista, é um acadêmico, diretor do Centro de Estudos de Liberdade de Expressão da Universidade de Palermo, Buenos Aires. Tocou numa questão crucial que serve à realidade portenha e encaixa-se perfeitamente na situação brasileira: o jornalismo investigativo não pode ser confundido com panfletagem. A apresentação de denúncias tem regras rígidas: primeiro os fatos, depois as inferências. Primeiro a malfeitoria, o malfeitor, depois seus eventuais cúmplices ou protetores.

O inverso é cavilação, diabólico artifício para acender os holofotes antes do circo de horrores. Isso é um tipo de jornalismo que no mundo anglo-saxônico é designado como "amarelo" (yellow press) e aqui escureceu, tornou-se marrom. Uma imprensa que não faz questão de parecer confiável jamais conseguirá mobilizar os leitores em sua defesa.

Ou como disse o presidente-agricultor do Uruguai: jornalistas devem atuar com honra. Honra, no caso, não equivale apenas à probidade, é sinônimo de consciência, de dignidade profissional.

Certezas desnorteadas

O presidente Lula afirmou na entrevista ao portal Terra que tem o direito de tomar partido, fazer propaganda, subir no palanque. Está errado. E com isso legitimou o palanquismo jornalístico.

Mas o presidente estava certo, certíssimo, quando denunciou as poucas famílias que dominam numa mesma região, jornais, rádios e TVs. No entusiasmo retórico, não lembrou do caso da família Sarney, que além de jornais, rádios e TVs é dona do Amapá e do Maranhão inteiros. Neste último controla até o Judiciário, o que lhe garante eterna impunidade. E, não satisfeita com este imenso poder, a família é dona do Legislativo federal.

E por que razão a mídia não destacou a denúncia presidencial que atinge em cheio o seu mais forte aliado político? Porque nossa mídia não quer ouvir falar em desconcentrar os meios de comunicação, mesmo nas cidades de pequeno ou médio porte, e mesmo sabendo que nos Estados Unidos existe há mais de 70 anos uma agência cuja missão primordial é evitar ou neutralizar a propriedade cruzada.

Em meio às desvairadas certezas, falta apenas uma boa dose de ceticismo. Com pitadas de ironia. (Via: Observatório da Imprensa)

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