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Portas abertas

Quando se discute a questão dos blogs - e da Internet como um todo - uma das questões que geralmente são colocadas pelos jornalistas é sobre os dois lados da moeda. Por um lado, a Internet abre o espaço para que todos - independentemente do talento ou formação - tenham espaço para exercerem sua liberdade de opinião, sem a pressão e o rabo preso das chefias de redação ou dos empresários da mídia. Por outro lado, esse espaço pode ser usado por qualquer um para escrever o que quiser - com ou sem apuração, seja verdade ou não.
É interessante que não é cobrado um diploma de Letras, por exemplo, para que alguém se torne um escritor. Mas, o Sindicato dos Jornalista vive em constante campanha para que os jornalistas tenham diploma de Comunicação Social. Particularmente, tenho uma posição controversa sobre o assunto. Acredito que o jornalista deva, sim, ter uma formação superior, preferencialmente na área de humanidades (Antropologia, Sociologia, Filosofia, Direito, etc.). E, na minha opinião, poderia ser criado uma pós-graduação ou especialização em Jornalismo, para apresentação dos aspectos técnicos e teóricos da área.
Enfim, já escrevi - e levei algumas pancadas - sobre o assunto no Observatório da Imprensa. Mas, todo este preâmbulo nasceu quando escolhi postar o texto de um de meus professores na faculdade. Bom, se eu fiz faculdade de Jornalismo, você conclui que o professor seja um jornalista, não é? Pois é, um dos meus melhores professores no curso de Comunicação foi um economista!
José Amaral - carinhosamente chamado de Mestre Amaral - é o tipo de educador que estimula o pensamento, a reflexão, o debate.
Um amigo. E um jornalista nato. O que ficou mais claro quando passou a escrever para jornais de bairro, jornais comunitários, participar de programas de rádio.
E ele não escreve só sobre Economia. Escreve muito bem sobre música. E, é por isso que hoje tomei a liberdade de publicar aqui seu mais recente artigo para o jornal Mundo Lusíada, onde ele é colaborador.
Leia e acredito que você vai concordar comigo que é preciso mudar o ditado:
De jornalista e louco, todo mundo tem um pouco!!!



NO CENTENÁRIO DE CARTOLA,
JAMELÃO PARTE CONVIDADO
PARA A BATUCADA NO CÉU
José de Almeida Amaral Jr

Justamente agora, neste ano de 2008, quando os apreciadores da MPB comemoram os 100 anos de nascimento do ilustre e muito inspirado compositor carioca Cartola, falecido em 1980, o destino subitamente também carrega destas para outras o mais importante intérprete das escolas de samba do país, o incomparável Jamelão, grande vascaíno e igualmente mangueirense como o secular autor de "As rosas não falam".

Agenor de Oliveira – Angenor, segundo o erro na Certidão de Nascimento - nasceu no Catete, teve sete irmãos e, filho de família pobre, mal conseguiu estudar o curso primário. Perdendo a mãe na infância, logo teve que trabalhar para ajudar a casa. Mudou-se pequeno para o bairro de Laranjeiras, onde conheceu os ranchos Arrepiados e União da Aliança. Nesse período aprendeu a tocar cavaquinho, presente do pai. Aos onze anos mudou-se novamente de residência, deslocando-se então para o Morro da Mangueira. O trabalho duro e a vida boêmia estariam sempre presentes desde a mocidade.

Quando adolescente, fazendo o serviço de pedreiro, para evitar que caísse sujeira sobre o cabelo protegia-se com um chapéu-coco, que os colegas diziam parecer uma cartolinha. E o apelido surgiu então, acompanhando-o para sempre. Junto com o amigo e também parceiro Carlos Cachaça fundou em 1925 o Bloco dos Arengueiros. Este grupo unindo-se com outros da região fundaram em associação poucos anos depois a Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, a Verde-Rosa, cores do Arrepiados de sua infância e também de um antigo grupo local, o Caçadores da Floresta.

Em 1929 teve seu primeiro samba gravado por ninguém menos que o 'Rei da Voz', Francisco Alves. Intitulava-se "Que Infeliz Sorte". Três anos depois novamente Chico Alves em duo com Mário Reis levou ao disco outro samba de Cartola: "Perdão, meu bem". E aos poucos seus temas iam sendo registrados, embora nem sempre com crédito a ele, pois, naquele tempo era muito comum, triste realidade, para levantar alguns trocados, os compositores venderem às grandes estrelas suas canções. Segundo o pesquisador Ricardo Cravo Albin o samba "Não faz mal, amor" gravado também por Alves era uma parceria de Cartola e Noel Rosa, o 'Poeta da Vila Isabel', mas não revelado no selo do disco. Aliás, Noel gostava muito do refinado Agenor. Muitas vezes pernoitou no barraco do mangueirense para evitar dormir ao relento enquanto o orvalho ia caindo... Porém, embora suas composições fossem requisitadas para compra dos direitos ou gravação – Villa-Lobos indicou Cartola em 1940 para atuar numa apresentação com o maestro Leopold Stokowski que ia fazer registros da música brasileira para os EUA atuando com Pixinguinha, Luis Americano, Donga, João da Baiana, Jararaca e Ratinho entre outros bambas –, isto não melhorou suas condições de sobrevivência. Em 1946, para piorar, contraiu meningite e, pouco depois, ficou viúvo de um casamento iniciado aos 18 anos. Saiu da Mangueira e afastou-se do samba. Sumiu. Desapareceu. Muitos acharam que havia morrido. Nada incomum num país que desperdiça talentos, especialmente os vindos de camadas menos favorecidas.

Entretanto, cerca de dez anos depois, numa noite de 1956, o escritor Sérgio Porto reconheceu Cartola num boteco de Ipanema, vestido de macacão, molhado, trabalhando como lavador de automóveis. Esse fortuito encontro trouxe, assim, o sambista de volta aos palcos de onde nunca deveria ter saído. Contudo, somente em 1974 foi que ele conseguiu, finalmente, gravar um LP próprio, cantado e escrito por ele. Estava, naquela altura, com 65 anos de idade. Nesse ressurgimento também protagonizou a criação de um bar/restaurante na Rua da Carioca, centro do Rio, o Zicartola, em sociedade com sua esposa Eusébia, a dona Zica, no início dos anos 60. Naquele espaço culinário e cultural reuniam-se jornalistas, estudantes, poetas, músicos, boêmios. Não teve uma grande longevidade, mas fez história.

Agenor de Oliveira, entretanto, embora tardiamente, pode ser homenageado em vida, sentir-se querido e respeitado. Foi tema do Projeto Minerva em rede nacional, teve uma revista teatral intitulada "O Sol Nascerá" contando sua história, bem como um "Brasil Especial" na Rede Globo sobre sua biografia. Foi ovacionado por diversas capitais através do "Projeto Pixinguinha" atuando ao lado do também já saudoso João Nogueira entre outros fatos. O mais lamentável nisso tudo é que tenha ficado no ostracismo e passado por inúmeras dificuldades financeiras podendo ter dado tanta graça, sensibilidade e poesia a seu público. Apesar de todas as durezas da sobrevivência que teve de suportar manteve permanente a elegância e a alta categoria nas suas obras. Uma frase de Nélson Sargento resume essa figura singular: "Cartola não existiu; foi um sonho que a gente teve".

José Bispo Clementino dos Santos não teve uma origem melhor que a de Agenor de Oliveira. Também nascido no Rio de Janeiro, no bairro de S. Cristóvão em 1913, José Bispo era filho de um pintor de paredes. Após aprender o básico na escola primária foi à luta ajudar a família fazendo o serviço de engraxate e vendedor de jornais pelas ruas da então capital federal por volta dos 9 anos de idade. Era apelidado de Saruê. E, nas horas vagas, além de bater um futebolzinho, gostava de tocar tamborim e cavaquinho desde moleque. Gostava de acompanhar sua mãe na Escola Deixa Malhar, no Engenho Novo.

Certa ocasião, no meio de uma roda de samba, comum nos subúrbios cariocas, conheceu Gradim, o sambista Lauro Santos, que lhe convidou a visitar a Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira. Aos 15 anos ele entrou na bateria da Verde e Rosa para jamais abandonar a entidade. E, junto com seus colegas, passou a freqüentar as batucadas da Praça Onze. Com esse envolvimento progressivo com a música, resolveu arriscar um concurso como cantor. E foi gongado. Mas, não desistiu. Confiava na qualidade de sua voz. E não queria ser apenas um operário. Ainda bem. Nossos ouvidos e corações agradecem.

Rodou como 'crooner' em várias gafieiras e dancings. Tentou outros concursos. E conseguiu vencer o da extinta Rádio Clube do Brasil que o contratou por um ano. Ia ficando cada vez mais conhecido. Não mais como José Bispo ou Saruê e sim como Jamelão, fruto negro e doce, apelido dado não se sabe ao certo onde, por um apresentador de salão de bailes ou programa de calouros no dial. Mas, o fato é que em 1949 conseguiu registrar, enfim, seu talento em disco. Foi na Gravadora Odeon. E o feito não passou despercebido. Em 1952 foi para a Gravadora Sinter e tornou-se crooner da Orquestra Tabajara de Severino Araújo com quem viajou à Europa. Em 1954, pela Continental, emplacaria o clássico tema "Exaltação à Mangueira" (Enéas Brittes /Aloísio Augusto da Costa). Em 1956 imortalizou o samba-canção "Folhas mortas" de Ary Barroso, confirmando as possibilidades de seu canto, tanto esfuziante e rítmico no samba quanto no sentimental romântico. Personificou nos discos a dor de cotovelo do gaúcho Lupicínio Rodrigues. Foi cada vez mais sendo respeitado entre os amantes da música popular nacional. Tornou-se a voz da Mangueira e 'o intérprete do século dos sambas-enredo'.

Para o estudioso das origens afro e sambista Nei Lopes, Jamelão não foi só o maior gogó das escolas de samba como igualmente "um dos maiores cantores populares do Brasil em todos os tempos, formando no mesmo time de Francisco Alves, Sílvio Caldas, Orlando Silva, Nelson Gonçalves etc". O Ministério da Cultura lhe concedeu com muita justiça a medalha da Ordem do Mérito Cultural em 2001. Nesse mesmo ano tornou-se 'Presidente de Honra da Mangueira', a escola fundada pelo seu amigo, mestre Cartola, de quem gravou o primeiro samba em 1958, "Grande Deus". Recentemente, ao completar 90 anos, o cantor foi alvo de muitos outros tributos.

Agenor e José Bispo são dois exemplos de talentos que o destino acabou reservando uma dose de sorte por terem sido, apesar das dificuldades vividas, reconhecidos. Entretanto, isto pouco ocorre. Negligente com os mais pobres, o país desperdiça potenciais ao largar suas crianças nas ruas das grandes cidades e mesmo no meio rural, arriscando-as sem proteção à violência ou ao trabalho forçado. "Ouça-me bem, amor/ Preste atenção/ O mundo é um moinho". Triturador de sonhos ele poupou para nossa felicidade os dois mestres.

Neste centenário do nascimento de Cartola o Morro da Mangueira ficou desfalcado na batucada em sua honra. Jamelão não poderá comparecer como pretendiam os organizadores da comemoração. Teve que partir: foi chamado para soltar seu inconfundível vozeirão na versão celestial da festa.

São Paulo, 18 de junho de 2008.

José de Almeida Amaral Jr.
Professor universitário em Ciências Sociais
Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação
Colunista do Jornal Cantareira
Colaborador do Jornal Mundo Lusíada
Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz

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