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Caros Amigos

Não há isenção jornalística. Ponto. Partindo-se deste pressuposto, tudo que lemos, ouvimos e vemos, merece o devido filtro. Um exemplo: para ler Caros Amigos, é preciso saber que é uma revista mais à esquerda, que a maior parte dos colaboradores vão tentar justificar o governo Lula, vão meter o pau nos tucanos, etc e tal. Porém, depois de um período em que a leitura tornou-se até mesmo chata, creio que a revista tem voltado a tomar um prumo melhor. Na edição de dezembro, por exemplo, você encontra textos muito legais, como:

- Renato Pompeu, em Memórias de um Jornalista Não-Investigativo. Neste artigo, Pompeu volta ao passado, no tempo em que um texto de jornal passava, além do repórter, "também pelo redator, subeditor,editor, subsecretário, secretário e dois revisores". Hoje, embora a tecnologia tenha cortado tempo (e funcionários), muitos erros são vistos nos periódicos.

- Eduardo Matarazzo Suplicy, que escreve um texto pessoal e motivacional, intitulado Aprender piano aos 65 anos.

Mas, o que chamou a minha atenção mesmo, nesta edição de dezembro, foram dois artigos de certa forma polêmicos e que se contrapõem em essência e, por isso mesmo aguçam a reflexão. Vou reproduzi-los a seguir e aguardo seus comentários. O primeiro, é do poeta Ulisses Tavares e o segundo, do Frei Betto, escritor e frade dominicano. Só uma ressalva. Na edição de Caros Amigos o texto do Frei Betto saiu editado (reduzido) e eu preferi colocar o texto completo, que foi publicado no Adital.

Seres Natalinos e Imaginários
Ulisses Tavares

Em Deus eu não acredito. Acho tedioso e inútil entrar num revendedor autorizado de Deus (a igreja) e pedir alguma coisa a um ser do imaginário infantil e patrocinador das guerras. O Tio Patinhas do universo ouve apenas o tilintar das moedas.
Já em Papai Noel eu acredito. Fruto do sistema capitalista, do qual também faço parte, se bem que da banda dos explorados, suas regras são claras. Pagou, levou.
Onipresente e espalhafatoso, este portador de obesidade mórbida e roupa de palhaço é acessível ali no shopping center ou no camelô. Brega, interesseiro, oportunista, mas gente como a gente.
Se você quer algo terráqueo, pode se dirigir ao Papai Noel mais próximo e obter na hora. Democrático, o adiposo vestido com as cores da coca-c
ola tem de tudo para todos.
O rico, da zélite, encontra no saco do velho polonortista, do bom e do melhor. O podre, da zémanélite, também sai com seu presentinho
made in china e, se der sorte, com um cartão de esmola, digo, benefício governamental.
Papai Noel, realista, dá a cada um conforme sua posição na pirâmide social, que é aquela onde meia dúzia fica lá em cima, na pontinha, cagando na cabeça da maioria.
Já Deus, é um cara nebuloso. Única prova de sua existência é aquela que se vê nos noticiários: todo bandido brasileiro, de colarinho branco ou encardido, ao entrar ou sair da cadeia garante que Deus não o abandonará.

Mais convincente é Papai Noel, que, também nos noticiários de televisão, distribui panetones vencidos e brinquedinhos vagabundos para os pobres que moram lá naqueles lugares onde as empregadas se escondem nas ceias natalinas.
Deus faz parte da mitologia. Papai Noel da nossa idiotia.
E, afinal, Deus não tem cara.

Já Papai Noel é a cara de um presidente que um dia nós acreditamos muito. E que, se Deus quiser, ainda vai trazer o presente prometido. Ou não?

Ceia de Natal
Frei Betto


A Missa do Galo deu-se por celebrada na primeira hora de 25 de dezembro. Padre Afonso deixara-se contaminar pela aflição dos fiéis, ansiosos por retornarem às suas casas e desfrutarem a ceia antes de as crianças murcharem de sono. Abreviou a homilia, pulou orações, desejou a todos Feliz Nat
al e deu-lhes a bênção final. Uma dezena de paroquianos ombreou-se na sacristia para manifestar-lhe votos de boas festas. Presentes sobrepunham-se a um canto: camisas, meias, livros, essas coisas adequadas a um homem de Deus.
Dependurados os paramentos, padre Afonso viu-se sozinho. Miseravelmente só, em plena noite de Natal. O celibato é um dom e ele o sabia ter mere
cido. Ao longo de vinte anos de sacerdócio acometeram-lhe muitas tentações. Não era o fascínio das mulheres que o levava a duvidar de sua consagração. Admirava-as, sentia-se gratificado por achá-las belas e atraentes. Sinal de que havia nele um macho, o que no íntimo o envaidecia. Perturbava-o a consciência do pai que nunca fora. Muitas vezes sentia saudades dos filhos que não tinha.
Atormentava-o ver-se sozinho à mesa de refeições. Comer é comunhão, partilha, entremear ao cardápio o diálogo ameno e alegre. O alimento lhe caía insosso e, com freqüência, se surpreendia sonhando de olhos abertos, a mesa cercada por su
a família imaginária.
Naquela noite a solidão lhe bateu forte. Uma solidão com a ponta de amargura advinda de uma expectativa frustrada. Sentia-a na boca da alma. Nenhum
dos paroquianos lhe acenara a gentileza de um convite à ceia.
Padre Afonso revirou os embrulhos de cores brilhantes e encontrou o que bastava: um panetone e uma garrafa de vinho. Enfiou-os na pasta usada para levar sacramentos aos enfermos e dirigiu-se à zona boêmia.
Shirley
Shirley trazia os olhos inchados, o peito sufocado, o coração miúdo. Desde o fim da tarde chorara copiosamente ao recordar os natais de sua infância no norte de Minas. Lembrou da família que a repudiara, do marido que a abandonar
a, do filho que dela se envergonhava. Sentiu ódio da vida, da desfortuna a que fora condenada. Confusa, teve medo e vontade de sentir ódio também de Deus.
Pudesse, não trabalharia naquela noite. Todavia, não lhe restava alternativa. O acúmulo de dívidas a obrigava a ir à rua e aguardar o dinheiro ambulante que chegava escondido atrás da fantasiosa excitação de sua fortuita freguesia.
Mirou o homem de pasta na mão, camisa sem gola, sapatos escuros. Talvez viesse do trabalho. Enquadrou-o na tipologia adquirida em tantos anos de calçada: tinha o jeito ingênuo dos que buscam apenas aliviar-se e, na hora da cobrança, preferem ser generosos no pagamento a enfrentar uma prostituta irada disposta ao escândalo.
Trocaram olhares e ela se esforçou para estampar u
m sorriso sedutor. Ele parou e indagou; ela apontou o hotel de alta rotatividade na esquina. Caminharam lado a lado em silêncio, ela sobrepondo seu profissionalismo aos sentimentos esgarçados, ele apreensivo frente ao receio de ser flagrado ali por algum conhecido. Subiram as escadas opacamente iluminadas, em cujos degraus as baratas se desviavam ariscas.
Ao abrir o primeiro botão da roupa, ela ameaçou dizer qualquer coisa, mas ele se adiantou. Explicou que não estava ali em busca de sexo, e sim de companhia. Haveria, contudo, de pagar-lhe o devido. Contou-lhe de seu sacerdócio e de sua solidão, e indagou se ela se dispunha a orar com ele e compartir a ceia.
Shirley sentou na cama, enfiou o rosto entre as mãos
e desabou em prantos. Agora era um choro de alívio, de gratidão por algo que ela não sabia definir, quase de alegria. Logo, falou de seus natais na roça, o presépio em tamanho natural que o pai armava no quintal do casebre, o peru engordado durante meses para a ocasião, o bendito puxado por uma vizinha na falta de igreja e padre naquelas lonjuras.
Padre Afonso propôs fazerem uma oração. Ela se ajoelhou e ele tomou-a pela mão e fez com que se sentasse de novo. Ele ocupou a única cadeira do quarto. Abriu o Evangelho de Lucas e leu, pausadamente, o relato do nascimento de Jesus. Em seguida, perguntou se ela gostaria de receber a eucaristia. Shirley pareceu levar um choque. Como ela, uma puta, poderia receber a hóstia sem sequer ter se confessado? O sacerdote leu o texto de Mateus (21,28): "As prostitutas vos precederão no Reino de Deus". E acrescentou que era ele, e essa sociedade cínica, injusta, desigual, que deveriam se confessar a ela e pedir perdão por a terem obrigado a uma vida tão degradante.
Após a comunhão, padre Afonso tirou dois copos da pasta, encheu-os de vinho e partiu o panetone. Clareava o dia quando os dois ainda co
nversavam animados sobre suas vidas.

Capa da semana
A última capa da semana do ano vai para The Manila Times, jornal de Manila (Filipinas), que traz a foto do "trenó" do Papai Noel em tempos de guerra.

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