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Confraria Ekklesial (nas eleições)

Há uma semana de exercer meu direito/dever democrático, confesso que ainda não consegui escolher meu candidato a vereador. Mas, acho que sei quem não escolher...
O sítio Transparência Brasil ajuda um pouco. Como domingo é dia de escrever sobre igreja, espiritualidade e afins, fiz algumas buscas nos relatórios da organização que tenham a ver com esse perfil. Vejamos:
Mais de 91% da atividade dos vereadores de São Paulo é irrelevante para a cidade
De um total de 3.021 projetos apresentados entre 2005 e 2008 pelos vereadores que se encontram em exercício na Câmara Municipal paulistana, 892 foram aprovados; destes, apenas 206 se referiam a assuntos com impacto concreto sobre a vida e a administração da cidade. Os demais ou não foram aprovados ou, se aprovados, diziam respeito a homenagens, fixação de datas comemorativas e outros assuntos irrelevantes.
A média de produtividade relevante dos vereadores foi de apenas 8,6%. Isso significa que a taxa média de improdutividade da Casa é de 91,4% de projetos produzidos pelos vereadores que não tiveram impacto algum sobre a vida da cidade.
Fechando a atenção sobre as 892 proposições aprovadas, as 206 relevantes corresponderam a 23% desse conjunto. Os demais 77% (686 projetos) tratavam de assuntos inúteis para a coletividade.
Os vereadores paulistanos formularam um total de 1.202 projetos de nomeação de logradouros, definição de datas comemorativas e outras irrelevâncias. Como 686 foram aprovados, isso significa uma taxa de sucesso
de 57% para esse tipo de proposição. Já para os 1.819 projetos dotados de alguma relevância submetidos pelos vereadores, a taxa de aprovação foi de apenas 11%.
Em contraste, o Executivo submeteu 137 projetos de lei à Câmara de Vereadores, todos relevantes, obtendo aprovação de 85 deles, ou seja, 62%. Para 48 dos 55 vereadores as irrelevâncias acolhidas por seus pares
superaram os projetos com alguma relevância que tiveram promulgados.
Ver em www.excelencias.org.br/@pls.php a lista completa dos projetos apresentados por cada vereador, a sua classificação temática e o texto das proposições.

Estamos bem representados?

Você pode ler a íntegra do relatório sobre o Poder Legislativo da capital paulista aqui. Em suma, "91,4% da atividade legislativa da Câmara de Vereadores de São Paulo não tem efeito sobre a comunidade". Outros dados importantes também estão em outro relatório, do qual destaco alguns pontos:
Entre os vereadores em exercício, sete identificam-se como evangélicos: Atílio Francisco (PRB), Carlos Alberto Bezerra Jr. (PSDB), Carlos Apolinario (DEM), Jorge Borges (PP), Lenice Lemos (DEM), Marta Costa (DEM) e Noemi Nonato (PSB). Esse grupo, que representa 13% da Casa, não está ligado a um único partido, mas três de seus integrantes são filiados ao DEM.
Ao cruzar os dados do "Índice de relevância" dos projetos de vereadores evangélicos, chegamos aos seguintes números:
Carlos Apolinario (DEM/SP) 3,6%
Lenice Lemos (DEM/SP) 3,6%
Marta Costa (DEM/SP) 10%
Carlos Alberto Bezerra Jr. (PSDB/SP) 12,5%
Jorge Borges (PP/SP) 19%
Noemi Nonato (PSB/SP) 19,6%
Atílio Francisco (PRB/SP) 21,1%
Em comparação com os outros parlamentares, o "maior" índice é de Tião Farias (27,3%) e o menor é de Ademir da Guia (1,6%).

Ética e Conduta
Muito se discute a respeito das condições dos candidatos em relação à Justiça. A inocência presumida, até que se prove o contrário, é fato. Até o final do processo, com a sentença transitada em julgado, não se pode afirmar que alguém é culpado. Porém, muitas das denúncias podem revelar um pouco do perfil de alguém que pretende eleger-se a um cargo público. O Transparência Brasil destaca alguns pontos na vida dos vereadores paulistas:

Nepotismo

Onze vereadores teriam praticado nepotismo: Abou Anni (PV), Ademir da Guia (PR), Adilson Amadeu (PTB), Atílio Franciso (PRB), Carlos Apolinario, Dalton Silvano, Jooji Hato, Jorge Borges (PP), Marta Costa (DEM), Toninho Paiva (PR) e Wadih Mutran (PP). A acusação se baseia na constatação, pela imprensa, de que familiares desses parlamentares ocupavam cargos comissionados na Câmara Municipal. Alguns teriam sido contratados nos próprios gabinetes dos vereadores e outros nos gabinetes das lideranças de partidos ou nos gabinetes de outros vereadores.           
Carlos Apolinario (DEM)
- É alvo de Ação de Investigação Judicial Eleitoral, iniciada em 2006, por abuso de poder econômico e uso indevido de meios de comunicação social. As acusações se baseiam na alegação de que a igreja Assembléia de Deus, da qual é membro, teria custeado propaganda em favor de sua candidatura ao governo do estado em 2006. Em decorrência, o Ministério Público Eleitoral pede a cassação de seu diploma e a declaração de sua inelegibilidade.
- Um vereador paulistano detém concessão de radiodifusão: Carlos Apolinario. Segundo a base de dados do Ministério das Comunicações, Apolinario é sócio da Rádio Vida FM, que, de acordo com o sítio de Internet da emissora, tem sede na região de Santana (Zona Norte de São Paulo).
- Entre os maiores financiadores das campanhas eleitorais para vereador, predominaram as pessoas jurídicas. A principal exceção foi o vereador Carlos Apolinario, que figura como o quinto maior doador. O parlamentar, que doou R$ 145 mil para a própria campanha, não teve outros financiadores. Na campanha eleitoral de 2006, em que foi candidato a governador pelo PDT, usou R$ 469.233,34 de seu próprio bolso para financiar a sua campanha (que só teve outras duas doações, somando pouco mais de R$ 6 mil). Apolinario também foi candidato a governador de São Paulo em 2002 (desta vez pelo PGT), ocasião em que também financiou praticamente sozinho a própria campanha, contribuindo para ela com R$ 332.918,83.
- Ponto positivo: Carlos Apolinário é o vereador que menos gastou o dinheiro público, ou seja, recebeu verbas indenizatórias: R$ 721,35.
Lenice Lemos (DEM)
- De acordo com acusações dos dirigentes da igreja Renascer em Cristo, a vereadora, que foi bispa da agremiação, teria desviado cerca de R$ 2 milhões de doações feitas por fiéis; essa teria sido a justificativa para sua expulsão da igreja.
- Está entre os vereadores acusados de apropriação de salários: Ademir da Guia, Arselino Tatto, Claudete Alves (PT) e Lenice Lemos (DEM).
Eles querem voltar
Não sei quantos candidatos a vereador daqui em São Paulo se declaram evangélicos. Mas, destes sete analisados acima, todos querem continuar a "servir o povo paulista e a igreja"... (Vale a pena ler tambpem uma matéria de O Globo)

Atílio Francisco (perfil Folha - site pessoal)
Patrimônio declarado: R$ 98.538,07 
Vínculo religioso: Igreja Universal do Reino de Deus. É conhecido como "Bispo Atílio".

Carlos Alberto Bezerra Jr. (perfil Folha - site de campanha - site pessoal)
Patrimônio declarado: R$ 382.847,20 
Vínculo religioso: igreja Comunidade da Graça. É filho do fundador e líder da igreja, Pr. Carlos Alberto de Quadros Bezerra.


Carlos Apolinario (perfil Folha - site de campanha)
Patrimônio declarado: R$ 1.526.006,00 
Vínculo religioso: Igreja Assembléia de Deus Ministério do Brás, onde é evangelista. É diretor da Rádio Vida FM. Tentou estabelecer o "Dia do Orgulho Heterossexual" em contraposição ao Dia do Orgulho Gay. Alterou as regras de fiscalização do Psiu (Programa de Silêncio Urbano) para templos de cultos religiosos, diminuindo a multa de cerca de R$ 16 mil para R$ 500, apenas para as igrejas. Apresentou um projeto que isenta todos os templos religiosos da cidade do pagamento da Taxa de Fiscalização de Estabelecimentos (TFE). Como deputado estadual, foi autor da lei que proíbe a venda de bebidas alcóolicas nos bares e restaurantes situados ao longo das rodovias de São Paulo, conhecida como "Lei Seca".

Recentemente Apolinario foi "entrevistado" pelo assessor de imagem do programa humorístico CQC, Warley Santana. Alguns blogs afirmaram que tanto Apolinario quanto José Genoíno teriam pressionado a Band a não exibir as respectivas entrevistas (Fonte: O Enxadrista e Observatório da Imprensa). O programa com o Genoíno já foi para o ar. Eu não vi - e não consegui localizar, nem no YouTube - o que teria sido gravado com Apolinario. De qualquer forma, eis o ponto-de-vista do vereador, publicado em seu site:
Como peguei o CQC
Carlos Apolinario

Há pouco mais de um mês, fui entrevistado pelo CQC e, por saber que eram profissionais do programa, coloquei no meu gabinete uma câmera escondida e gravei tudo para, após a apresentação do quadro, colocar a entrevista na minha página na internet. Na gravação, em dois momentos eu e meu assessor de imprensa comentamos que a equipe era do programa. Ao ser entrevistado pelo ator paulistano Warley Santana, tive a confirmação, pois as cenas eram bem humoradas e o programa, montado, inclusive com perguntas e respostas sugeridas pelo próprio entrevistador.

Ao ver que ele era muito simpático, entrei na brincadeira dele. Warley me perguntou sobre minha infância, minha família e minha vida pública. Quando falou da minha esposa, me sugeriu que eu dissesse que, no baralho da vida, ela era a minha dama. Eu disse a ele que não entendo de jogo nem de baralho, mas ele insistiu para eu dizer a frase. Por saber que era uma brincadeira, mais uma vez entrei na dele.

Quero dizer que o programa tem mérito, pois o formato mostra como as televisões montam suas entrevistas. Quando alguém assistir na tevê a um repórter chegando de surpresa à casa de alguém ou a seu local de trabalho, saberá que é tudo montagem. Nesse sentido, é bom o programa do CQC, pois seus atores mostram como funciona a televisão. Porém, no meu entender, esse tipo de montagem que é feita com políticos, médicos, professores ou qualquer outro entrevistado não revela uma armação, mas a dinâmica própria do veículo, o jeito de se fazer televisão. O mesmo ocorre com fotógrafos, que muitas vezes fazendo o seu trabalho sugerem ao entrevistado uma determinada posição. Não podemos dizer que isso é uma armação, e sim uma dinâmica do seu próprio trabalho. Por fim, um registro que não posso deixar de fazer: Mesmo que a frase sobre a minha esposa tenha sido sugerida pelo entrevistador, ela é verdadeira, porque no jogo da vida minha esposa é realmente a minha dama.

Jorge Borges (perfil Folha - site pessoal - site de campanha)
"Não possui bens a declarar" 
Vínculo religioso: pastor da Igreja Universal do Reino de Deus. Foi acusado de empregar o filho do Bispo Atílio, que teria empregado sua filha (confira)

Lenice Lemos (perfil Folha - site pessoal)
Patrimônio declarado: R$ 39.245,68
Vínculo religioso: No site pessoal, Lenice oculta ter sido uma líder influente da Igreja Renascer em Cristo, mas ainda usa como nome de campanha "Bispa Lenice". Consta pertencer a Assembléia de Deus Bereana. No útimo dia 10 de agosto teria participado de um culto na Igreja Batista Apostólica da Nações.

Marta Costa (perfil Folha - site pessoal)
"Não possui bens a declarar" 
Vínculo religioso:  filha de José Wellington Bezerra da Costa, Pastor Presidente da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil e do Ministério do Belém. Destaca em seu site que é "formada em Letras e Administração de empresas" e "Fiscal concursada do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, onde atuou fiscalizando as contas públicas de cidades e prefeitos".


Noemi Nonato (perfil Folha - site de campanha - site pessoal)
Patrimônio declarado: R$ 282.000,00
Vínculo religioso: cantora "gospel". Não localizei se é membro de alguma igreja específica.

Analise você também
- A Folha de S. Paulo preparou uma lista com o perfil dos candidatos a vereador em São Paulo.
- Perfil dos candidatos por O Estado de S. Paulo.
- A AMB (Associação dos Magistrados do Brasil) promove a campanha Eleições Limpas.
- Visite o sítio Voto Consciente.
- Se você conhece outro lugar onde podemos analisar melhor os políticos, indique aqui nos comentários.

"Presente!"
Ainda no Transparência Brasil é possível consultar uma listagem dos parlamentares da Câmara dos Deputados que se afirmam evangélicos (aqui). Cruzando os dados com o índice de faltas, temos:
Antonio Bulhões (PMDB/SP): 1 falta justificada
Antonio Cruz (PP/MS): 35 faltas justificadas
Carlos Willian (PTC/MG): 18 faltas justificadas - 12 faltas injustificadas
Dr. Nechar (PV/SP): 61 faltas justificadas - 3 faltas injustificadas
Eduardo Cunha (PMDB/RJ): 10 faltas injustificadas - 11 faltas injustificadas
Eduardo Lopes (PSB/RJ): 2 faltas injustificadas - 1 faltas injustificadas
Filipe Pereira (PSC/RJ): 20 faltas injustificadas - 1 faltas injustificadas
Flávio Bezerra (PMDB/CE): 1 falta justificada
George Hilton (PP/MG): 65 faltas justificadas - 1 faltas injustificadas
Gilmar Machado (PT/MG): 10 faltas justificadas - 9 faltas injustificadas
Henrique Afonso (PT/AC): 40 faltas justificadas - 5 faltas injustificadas
Íris de Araújo (PMDB/GO): 33 faltas justificadas
Jefferson Campos (PTB/SP): 3 faltas justificadas - 3 faltas injustificadas
João Campos (PSDB/GO): 33 faltas justificadas - 4 faltas injustificadas
João Magalhães (PMDB/MG): 12 faltas justificadas - 7 faltas injustificadas
Jurandy Loureiro (PSC/ES): 40 faltas justificadas

Em tempo (1)

Gostaria de deixar claro que a intenção deste texto não é fazer campanha, nem desmerecer qualquer um dos candidatos citados. Também gostaria de deixar claro que nenhum deles receberá meu voto.

Em tempo (2)

Saiu um artigo interessante sobre os horários locados para igrejas nas emissoras de televisão, no Observatório da Imprensa.

3 Opiniões:

Carlos Eduardo Pereira disse...
29/9/08 9:20 AM

Fábio,
Ótimos cruzamentos dos dados. Interessante notar ainda que dentre os vereadores ditos evangélicos, além dos 3 do DEM, o Bezerra (PSDB) foi quem liderou o racha no partido e também apóia a candidatura do Kassab. Belo exemplo, não?
Abraços.

Anônimo disse...
29/9/08 9:22 AM

me chama a atenção o patrimônio declarado de boa parte dos evângue los-candidatos ser tão baixo, ou até sem patrimônio nenhum. será q emprestaram a Deus?

joão ali

Carlos Eduardo Pereira disse...
29/9/08 9:24 AM

Outra coisa. A irrelevância dos debates e projetos apresentados na Câmara de SP é, em síntese, o que a Soninha acusou quando falou que a Câmara não votava nem debatia por mérito e sim pelas conveniências das barganhas. Pelo qual ela foi rechaçada... Os santos da casa acharam o maior absurdo... pode?
Abraço.

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