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Balaio

O jornalista Ricardo Kotscho criou um espaço no portal iG (também reproduzido no sítio da revista Brasileiros), com a finalidade de escrever "sobre tudo", não necessariamente sobre o que "bomba" na mídia. Segue o post de ontem (03/12):
Um post sem Dantas, crise, tragédias

Conta uma lenda urbana carioca que certa vez o ex-blogueiro e quase ex-prefeito Cesar Maia entrou num açougue e pediu um sorvete. É o que acontece, imagino, com alguns leitores deste Balaio que reclamam por não encontrar aqui os assuntos por eles considerados importantes.

Esta semana, um novo e bom amigo, o Dr. Jardim, da turma que se encontra nos finais de tarde no bar do Beto Ranieri, me cobrou um comentário sobre a indicação de Hillary Clinton para o governo Obama anunciada naquele dia. Nem tinha pensado nisso. Outros indagam porque o Balaio não fala do caso Daniel Dantas, da tragédia de Santa Catarina, da crise econômica mundial.

O que teria eu a escrever sobre a nomeação da sra. Clinton, que não tive a honra de conhecer, e destes outros assuntos, além de tudo que já foi exaustivamente publicado em todos os blogs, colunas e na imprensa em geral? O que mais me irrita como leitor é exatamente esta mesmice, tratar das mesmas notícias enguiçadas de que fala o meu colega Tuty Vasques. 

Numa época de pauta e pensamento únicos, meu objetivo no Balaio, desde o primeiro dia, como escrevi aos leitores, é tratar de assuntos que estão fora da mídia. Aqui não tem assunto obrigatório nem proibido. Procuro tratar de temas da vida real, fazer uma espécie de meu diário de repórter _ e tem dado certo. A cada dia, noto que entram mais novos leitores do que saem os que não encontraram sorvete no açougue.

Não poderia ter encontrado lugar melhor para refletir sobre este cardápio do Balaio e sua freguesia do que onde estou agora, numa fazenda em Igaratá, a uma hora de São Paulo. O único problema é a dificuldade para conseguir sinal da internet no meio do mato. Mesmo tão perto da cidade grande, é um outro mundo, mais lento, menos competitivo.

Por isso, saí do ar ontem, mas hoje dei um jeito de colocar nossa conversa em dia. Por um feliz acaso, comecei a ler hoje matéria da Folha de ontem, que tem tudo a ver com o que eu gostaria de dizer nesta hora de tantas aflições pelo mundo afora com a sucessão de crises e tragédias numa interminável safra de más notícias.

A matéria, na verdade, é de Sharon Otterman, do New York Times, e foi reproduzida pela Folha Ilustrada. Sob o título “blog zen”, assim mesmo, só com minúsculas, a matéria trata do “movimento do slow blogging, inspirado na idéia de slow food”. Uma das estrelas do movimento, Barbara Ganley, prega que páginas pessoais de internet sejam “um convite à reflexão, em vez de noticiosas e imediatistas”.

Mesmo sem saber da sua existência, sou há tempos um fiel seguidor deste movimento, ainda quando trabalhava na grande imprensa. Sempre procurei fugir dos assuntos que estão nas manchetes, das entrevistas coletivas, da competição com outros colegas pela mesma matéria.

Por isso, nos distantes anos 60 do século passado, comecei a ser chamado de “repórter do pipoqueiro”, em contraponto aos “repórteres dos assuntos sérios” naquela velha redação do Estadão dos tempos da censura (conto esta história no meu livro de memórias “Do Golpe ao Planalto”, editado pela Companhia das Letras).

Sempre gostei de inventar uma pauta fora do mundo oficial, de preferência num lugar bem longe, pegar um fotógrafo e um motorista ou uma passagem de avião e sair por aí caçando histórias sobre a grande aventura humana em nosso país.

Ao explicar o “slow blogging”, a repórter do NYT cita Todd Sieling, autor de um manifesto lançado em 2006, que define o movimento como “rejeição ao imediatismo”. “Em seu blog, Ganley justapõe imagens e textos, tecendo reflexões sobre a paisagem local. Ela tende a incluir posts uma ou duas vezes por semana, mas à vezes passa cerca de um mês sem incluir material novo”.

Ainda não cheguei a tanto… Sofro quando fico um dia sem atualizar o Balaio, mas concordo com a blogueira zen quando ela receita: “Escreva num blog para refletir; escreva tweets para se conectar. O blogging é aquele lugar sem pressa.

A seguir, reproduzo as 7 dicas do jornal para “você começar a postar como uma tartaruga”:

1. “Slow blogging” é a rejeição ao imediatismo
2. “Slow blogging” prova que nem tudo que merece ser lido é escrito às pressas
3. “Slow blogging” é meditação
4. Blogs de notícias são como restaurantes de fast-food
5. Fique em silêncio por alguns minutos antes de escrever
6. Não escreva a primeira coisa quelhe vem à cabeça
7. Inclua posts uma ou duas vezes por semana, mas, se precisar ficar um mês sem escrevar, faça

Se eu seguir esta última dica tenho a ligeira impressão de que o iG vai me mandar embora. Quem estiver procurando notícias  quentes sobre os principais assuntos do dia, pode encontrar aqui mesmo neste portal, no nervoso cardápio do Último Segundo comandado pela Mariana Castro.  Peço licença para me despedir porque agora estou sendo chamado para uma caminhada ecológica.

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