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Neurose dominical

Tem coisas que só a igreja faz por você
Camila Hochmüller Abadie

Ontem à tarde, em visita ao setor psiquiátrico de um hospital aqui de Porto Alegre, chamou-se a atenção o quadro de uma paciente em particular. Em meio a tantos outros pacientes sofridos, alguns em silêncio, outros dividindo suas loucuras com quem quer que tivesse ouvidos, ela estava triunfante. Pensando melhor, talvez “triunfante” não seja a palavra mais adequada, mas não me ocorre outra melhor e, em todo caso, expressa um pouco a idéia do que quero dizer.

Ela, a paciente que não sei o nome, tinha um dos pulsos amarrados junto à maca, prova de sua não constante docilidade. De tempos em tempos olhava para próprio pulso amarrado e dizia, com ar de desdém: Isso aí não é nada pra mim. E seguia falando sobre outras coisas. Porém, não bastasse isso, passado algum tempo ela começou a entoar um cântico, ao qual prestei atenção na tentativa de descobrir. E não foi preciso muito tempo para que eu conseguisse compreender o que ela dizia: tratava-se um hino evangélico qualquer. Terminado o hino, uma pausa para xingar a enfermeira e, logo depois, emendar com uma oração que dizia coisas como: “Senhor Jesus, me tira daqui… Só a Deus pertence todo o poder… Aleluia” e por aí afora.

Já na saída, enquanto o guarda confirmava minha saída com a enfermeira, ela, a mulher que não sei o nome, olhou para mim e com um sorriso nos lábios, disse: “Eu conheço essa moça”. Pronto. Se eu demorasse mais um segundo ali, receberia uma profecia de presente. Saí o mais rápido que pude.

Só Deus sabe tudo o que eu ouvi e vi ali naquele lugar, que certamente não é o pior do mundo, mas que é bastante cru e ruim. No entanto, dentre todas essas coisas o quadro daquela mulher me chocou e me entristeceu de um modo bem específico e profundo.

É bastante provável que a tal paciente não tenha desenvolvido tais comportamentos unicamente graças à igreja. Trata-se, sem muitas chances de erro, de um quadro que vem evoluindo com os anos e que encontrou na igreja o terreno propício para aflorar. E este é o problema. Quando Martinho Lutero estabeleceu, por meio de sua defesa contra as acusações clericais, as Escrituras e a razão como critérios para seu próprio comportamento e postura de fé, parece-me que de um modo inimaginado foram abertas as portas para tantas loucuras!

Claro, muitas coisas foram e continuam sendo desconstruídas de lá para cá, tanto dentro quanto fora dos arraiais do cristianismo, inclusive o próprio conceito de razão, mas não sei ao certo como explicar este subjetivismo psicótico que tem se alastrado pelas igrejas e igrejolas brasileiras sem reportar-me ao início da reforma. De algum modo, a perda da objetividade no que diz respeito ao estabelecimento do que seja consensualmente racional tem trazido conseqüências avassaladoras no campo da fé. “Deus me revelou”, “Deus mandou”, “Deus falou comigo”, “eu vejo o mundo espiritual”, “eu falo em línguas estranhas” são só alguns exemplos de falas cada vez mais comuns no meio evangélico brasileiro - um rebanho alucinado.

Não estou dizendo que a culpa é de Lutero, ou da Reforma. Estou, na verdade, tentando escrever e organizar o meu raciocínio sobre algo que conheço muito de perto, e que por isso me assusta, me perturba e me preocupa muito, muito mesmo: baseadas em uma liberdade libertina no exercício da hermenêutica e da exegese, multidões têm aderido a seitas pseudo-cristãs que lançam mão dos séculos de tradição do cristianismo em um jogo de roleta russa existencial. As igrejas, cada vez mais, em lugar de consistirem em um lugar de refúgio e de cura, tornam-se antros, contaminados por múltiplas formas de heresias altamente contagiosas e doenças psíquicas.

Não preciso dizer que nem todas as igrejas são assim, não é? As igrejas que escapam a esta vala comum são, normalmente, as igrejas ditas “geladas”, “frias”, não renovadas, não carismáticas, aquelas “que não acreditam na contemporaneidade dos dons” e blá, blá, blá. As quais, por sua vez, também não são perfeitas, mas encontram suas falhas em outros tipos de problemas.

Enfim, paro por aqui. Encontro-me com mais dúvidas, revoltas e pesares do que com respostas que tragam algum consolo. Inclusive, em termos de consolo e de critério, a única coisa que tem permanecido firme por aqui é o segundo mandamento: amar ao próximo como a si mesmo.

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