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Clássico

Ontem, aproveitei a malha ferroviária de São Paulo para sair do marco zero (Praça da Sé) e ir até a Zona Sul (Morumbi). Peguei o metrô na estação Sé, desci na estação Paraíso, fiz a baldeação até a estação Vila Madalena, onde apanhei um micro-ônibus da operação ORCA, que me levou até a estação Cidade Universitária, onde peguei o trem até a estação Morumbi. Para tudo isso, só paguei uma passagem (R$ 2,30). O problema é fazer isso às 6 da tarde, no horário de pico. O trajeto levou cerca de uma hora, o que foi rápido, se levar em conta o trânsito no horário, caso eu fosse de carro. Porém, nos dez minutos de trem deu para sentir duas coisas: 1) Realmente os trens europeus são bons, com ar condicionado e tudo; 2) O número de composições não dá conta nos horários de pico, tornando uma verdadeira aventura descer na estação desejada, quando esta não é a inicial ou final.
E o que isso tem a ver com o tema de hoje, música? Na verdade, eu me senti em um filme - talvez uma comédia - pois estávamos todos empoleirados dentro do vagão, cansados depois de um dia de serviço e, de repente, depois do maquinista indicar a próxima estação, um som de música clássica invadiu o vagão pelo sistema de som. E assim foi durante toda a viagem. Por isso, resolvi colocar duas músicas eruditas no DoxaBrasil Online desta semana.
A primeira música que você ouve é a Antífona Pueri Hebraeorum, para o Domingo de Ramos, a 8 vozes e órgão, composição do luso-brasileiro André da Silva Gomes, figura marcante do período barroco da música brasileira. Silva Gomes foi mestre-de-capela da Sé (São Paulo) durante 50 anos (1774 - 1824) e compôs cerca de 130 músicas religiosas. O mestre-de-capela era responsável por dirigir e compor a música nas igreja catedrais ou matrizes.
A execução da obra de André da Silva Gomes deve-se ao trabalho do Centro de Estudos e Pesquisas da Música Brasileira, responsável pela transcrição musicológica desta música que você ouve e de muitas outras. Em específico, esta antífona foi transcrita por Geraldo Teodoro de Almeida e gravada pelo Brassilessentia Grupo Vocal, com Elisa Freixo, ao órgão, e regência de Vitor Gabriel- de quem tive a honra e o prazer de ser aluno -, uma das faixas do álbum André da Silva Gomes (Paulus, 1994). Segue a letra e tradução do latim:
Pueri Hebraeorum
Pueri Hebraeorum
Portantes ramos olivarum
Obviaverunt Domino
Clamantes et dicentes:
Hosanna in excelsis

Pueri Hebraeorum
Vestimenta prosternebant in via
Et clamabant, dicentes:
Hosanna filio David
Benedictus qui venit in nomine Domini

Os filhos dos Hebreus
Os filhos dos Hebreus
Levando ramos de Oliveira
Foram ao encontro do Senhor
Clamando e dizendo:
Hosana nas alturas

Os filhos dos Hebreus
Estendiam suas vestes
E clamavam, dizendo:
Hosana ao Filho de Davi
Bendito o que vem em nome do Senhor

A segunda música desta semana é praticamente uma brincadeira do grande Wolfgang Amadeus Mozart (1756 - 1791). Provavelmente composta no período em que o músico esteve em Paris, Ah, Vous Dirai - Je, Maman apresenta uma série de 12 variações da famosa cantiga de ninar francesa. Esta gravação foi executada pelo pianista húngaro Jénö Jandó e está no CD Piano Sonatas Nos. 11 and 14 - Fantasia - Variations (Naxos, 1989). Nos idos de 1995 eu tive a ousadia - diria até, maluquice - de escolher esta obra para a matéria piano, durante minha curta passagem pelo curso de Composição e Regência na UNESP. Bons tempos aqueles.

Novembrinas

Começamos mais um mês, aliás o penúltimo deste ano. E hoje acordei com vontade de escrever um pouco. Aí vão alguns tópicos do dia:

- Ontem estranhei o barulho de helicópteros perto de casa. Olhei pela janela e vi que cobriam uma área bem próxima de onde moro. Graças à tecnologia, não precisei sair correndo de casa para ver o que tinha acontecido. Enquanto às emissoras abertas continuavam na sua programação normal, a Record News e a Globo News já divulgavam aquilo que nem elas sabiam direito, confiando nos depoimentos das testemunhas "quase" oculares. De qualquer forma, é impressionante quando um evento desses acontece próximo à sua janela. Há uma ou duas semanas, eu e minha família almoçamos em um restaurante que fica uma quadra de distância do local dessa tragédia. Como afirma o dito popular: "Para morrer, basta estar vivo". Digo isso, pensando também no homem que morreu quando uma árvore atingiu seu carro e outro, quando um raio atingiu seu guarda-chuva, ainda na semana passada, devido às fortes chuvas.

- Se você leu o post Not Guilty, da semana passada, talvez ache minha postura meio controversa. Talvez o seja. Mas, eu esperava o tipo de matéria divulgada ontem pela Rede Record, no programa Domingo Espetacular (aliás, repetida em parte hoje pela manhã, no Fala Brasil), que aborda os casos de pedofilia no clero. A matéria em nenhum momento menciona o caso do padre Júlio Lancellotti, porém é óbvio que aproveitou o momento e as suposições. Por outro lado, gastou grande tempo mostrando um caso no Brasil e partes de um documentário da BBC, que aborda o assunto. Não que esse tipo de matéria devesse ser descartada ou minimizada. O problema é centralizar o ataque - mesmo que indireto - na igreja católica, o que torna a reportagem parcial. Particularmente, não conheço muitos casos semelhantes na meio das igrejas protestantes e suas ramificações. Mas há. Então, por que não colocá-los, até para mostrar se há uma grande diferença de números de casos entre uma e outra? Ou mostrar como a liderança da igreja católica e das igrejas protestantes lidam quando se descobre um caso desses, se são omissas e corporativistas ou punem os infratores e tentam criar formas para dificultar novos casos. Infelizmente, enquanto jornalismo e religião não se desmembrarem, a Rede Record ainda vai ficar atrás, talvez não em qualidade ou audiência, mas em ética e imparcialidade - pelo menos a tentativa, já que imparcialidade total é impossível.

Dicas
- Começa nesta noite o I Fórum Nacional de Cristianismo Criativo. Entrada Franca. Debate garantido. Hoje, com a presença de um amigo pessoal, Volney Faustini, e com o som fantástico do músico Jorge Camargo, em um pocket show. Às 19h, no auditório da Livraria Cultura Shopping Market Place (Avenida Chucri Zaidan, 902 - Morumbi). Saiba mais.

- Se você curte jazz, não perca nesta terça-feira o Trio Solitude, no bar e restaurante Mão Santa: Rua Mourato Coelho, 816 - Vila Madalena - São Paulo. Participação especial: Susana Rocha.

Cristianismo Criativo

Todas as segundas-feiras de novembro, no auditório da
Livraria Cultura do Shopping Market Place
(Av. Chucri Zaidan, 902 - Morumbi)
Início às 19h.

Confira a participação especial de alguns de nossos confrades:

5 de novembro
Tema: Artes, Cultura e Cristianismo. Onde estamos?
Palestrante: Volney Faustini.
Pocket-show: Jorge Camargo.
Moderação: Nelson Bomilcar.

12 de novembro
Tema: O cristão e a arte multifacetada.
Palestrantes: Gerson Borges e “Wolô” Boruszewski.
Pocket-show: Gerson Borges.
Moderação: Sérgio Pavarini.

19 de novembro
Tema: Teatro cristão. Ficção ou realidade.
Palestrantes: Carlos Eduardo Pereira e Wilson Tonioli.
Pocket-show: Glauber Plaça.
Moderação: Sérgio Pavarini

26 de novembro
Tema: Artes, Cultura e Cristianismo. Caminhos possíveis.
Palestrantes: Carlinhos Veiga e Wagner Archela.
Pocket-show: Carlinhos Veiga
Moderação: Nelson Bomilcar

Passa-se o Ponto

Depois de Sob Nova Direção, Ingrid Guimarães estreou semana passada um novo programa, Mulheres Possíveis, pelo canal de TV paga GNT. Segundo o site do programa, "a série trata dos contrastes nas vidas das 'mulheres possíveis' ao desmistificar o cotidiano de atrizes e de apresentadoras, e ao descobrir a porção artista de mulheres comuns na maneira como encaram o trabalho, amigos e a família".
Com um patrocínio exclusivo da Natura, Ingrid entrevista celebridades e anônimas, destacando as situações do dia-a-dia. No primeiro programa as escolhidas foram a cantora Maria Rita e a fotógrafa Masi Torres. A tentativa do programa é mostrar o lado "normal" das famosas - como mães, esposas, filhas, donas de casa - e o lado "celebridade" das mulheres "normais".
A produção é da Cinema Centro, de São Paulo, com direção de Fernanda Telles.
Como os artistas globais estão na onda dos blogs, às vezes rola alguma coisa dos bastidores do programa no blog da Ingrid Guimarães.
Hoje o programa trará a atriz Irene Ravache e a gari Isabel Pelegrino.
Mulheres Possíveis vai ao ar pela GNT aos sábados, às 21h30 (reprise nos domingos, às 03h30 e 14h00; nas quintas, às 11h00; e nas sextas, às 23h30).

Not Guilty

Em inglês, pode-se traduzir a palavra inocente por: innocent; free from sin or wrongdoing; pure; entre outros. O interessante é que, juridicamente o termo é not guilty - você já deve ter escutado em filmes -, algo como "não culpado" e não, como utilizamos em português, inocente. Guilty é, então, aquele que deve ser punido, aquele que tem culpa.

Explico a seção "the book is on the table". Esta semana pensei sobre a questão da presunção de inocência, levantada pelo advogado Luiz Eduardo Greenhalgh em relação ao caso do Padre Julio Lancellotti. Em entrevista para a Rede Globo (reproduzida na imprensa escrita), Greenhalgh afirmou: "Temos que pesar se vamos dar guarida à palavra de um bandido ou à palavra do padre Júlio. Eu quero se que presuma a inocência do padre, porque foi ele que denunciou a armação".

O princípio da presunção de inocência é uma garantia constitucional (artigo 5º, inciso LVII). A partir dela não se pode fazer o lançamento do nome de um réu no rol dos culpados, antes do trânsito em julgado da decisão condenatória. Ou seja, na Constituição brasileira não se afirma expressamente que todos são inocentes até que se prove o contrário, mas sim que ninguém será considerado culpado daquele crime até o fim do processo, que é o princícipio da desconsideração prévia da culpabilidade. A diferença é sutil, mas existe.

Por outro lado, embora não esteja nas letras jurídicas, entendo que também há a presunção da culpa, a partir da argüição de Greenhalgh, pois o "bandido" seria culpado (de qualquer crime), até que se prove a sua inocência. Claro que minha intenção aqui não defender ou julgar nehunhum dos lados, nem fazer juízo de valor da situação, mas tentar analisar um pouco como a imprensa lida com estas situações. É inevitável retornar para um caso emblemático, como o da Escola Base, que marcou a história do jornalismo brasileiro. Em dezembro de 96, o governo do Estado de São Paulo foi condenado a pagar uma indenização por danos morais no valor de cem salários mínimos aos donos da escola e a um colaborador envolvida. Esta prevista uma perícia para avaliar os prejuízos materiais das vítimas. O jornalista Alex Ribeiro escreveu um livro interessante sobre o caso e o site do Instituto Gutenberg resume bem o acontecido, para quem não se recorda dos detalhes, destacando no artigo que as vítimas "sofreram um assassinato social: perderam os empregos, a paz e isolaram-se da comunidade".

É importante frisar que imprensa não é um órgão da Justiça, nem os repórteres são investigadores de polícia. Mas, em tempos de pouca apuração dos fatos, muito do que é publicado depende de "vazamentos" ou declarações das fontes oficiais, oficiosas e, também, misteriosas. É importante lembrar, também, que as instituições muitas vezes usam a imprensa para plantar informações em benefício próprio, seja ele político ou econômico. E, por outro lado, muitos jornalistas usam seu juízo de valor para pesar as palavras nas matérias, muitas vezes julgando a culpa ou a inocência dos personagens, quando os acusados ainda nem saíram das delegacias.

Votando ao caso do Padre Júlio Lancellotti, tenho acompanhado a cobertura do assunto pelo jornal O Estado de S. Paulo, que teve início na quarta-feira, dia 17 de outubro, com matérias no dia 18 e 19 , sempre no caderno Metrópole, sob o clichê Investigação. Houve uma pausa entre os dias 20 e 23 (que pegou o fim-de-semana, quando há um índice maior de leitura). A partir do dia 24 (quarta-feira) até hoje todos os dias saiu alguma matéira, inclusive nas edições do final de semana. Confira as manchetes do jornal (entre parênteses, "C" é o caderno e a página em que foram publicadas as matérias):
17/10 - Padre Júlio denuncia extorsão e Igreja cobra proteção do Estado (C1)
"Tenho de ser mais cuidadoso, perspicaz" (entrevista com o padre Julio Lancellotti)
"Pessoas infelizes se aproveitaram da solidariedade do padre", diz Suplicy
Religioso atua na área social desde os anos 70
18/10 - Acusado de achaque a padre negociava carros de luxo
19/10 - Padre vai para Roma e pede proteção para a mãe
24/10 - Padre Júlio cancela viagem para Roma (C3)
25/10 - Padre Júlio: polícia apura denúnica de 'ato libidinoso' (C14)
26/10 - Polícia quer ouvir funcionários do padre Júlio (C3)
27/10 - Vizinho cita mais 4 em esquema contra padre (C7)
Entrevista com Everson Guimarães (ex-faxineiro preso que diz ter recebido do padre cinco envelopes com dinheiro)
28/10 - Polícia pedirá quebra de sigilo do padre Júlio (C5)
Ex-interno aponta local de saque de R$ 40 mil
Acusação é inverossímil, diz Greenhalgh (C7)
"Alarde esconde o caso Pórrio"
Arcebispo sai em defesa de padre (C8)
Prefeitura pede auditorias em ONG
29/10 - Polícia vai rastrear pagamentos deitos pelo padre Júlio a quadrilha (C3)
30/10 - Ex-interno teve sigilo quebrado em 2006, após denúncia à polícia (C4)
Delegado pede segredo de Justiça em processos
Lancelloti foi com casal comprar Pajero
31/10 - Padre Júlio denunciou à polícia em 2006 outra exotorsão, de traficante (C1)
Bandido acusou Lancellotti de forjar flagrante (C3)
Sacerdote deu R4 400 mil a casal, estima polícia
Se padre errou, Igreja vai admitir, dizem bispos
1º/11 - PM investigou ameaça a pedido de Lancellotti (C6)
Polícia investiga advogado por aluguel de apartamento para ex-interno

Ou seja, embora continue figurando como vítima, de acusador, Lancellotti tem ligeiramente passado a acusado, embora a imprensa tenha sido bastante cautelosa na forma de colocar ao público o andar das investigações. O que eu ainda não vi foi algum box ou chamada na imprensa, aproveitando a deixa para apresentar, por exemplo, estatísticas sobre a pedofilia no clero, já que o assunto acaba sendo levantado nas entrelinhas das matérias. Alguns exemplos de dados sobre o assunto:
- O jornal Correio Braziliense, de 16/11/2005, afirmava que, "segundo documento do Vaticano, 1,5 mil dos 18 mil padres que atuam no Brasil estão sendo investigados por suspeita de crimes sexuais. A maioria é acusado de pedofilia";
- Segundo a agência Ansa, em agosto a organização não-governamental norte-americana Rede de Sobreviventes de Abuso Sexual de Sacerdotes declarou que tem uma lista com mais de 90 padres mexicanos envolvidos em atos de pedofilia;
- Nos EUA, "para ser expulso o membro da Igreja precisa ser um pedófilo contumaz, com um histórico de abusos", trecho da matéria da VEJA. Os EUA, inclusive, foi alvo de muitas críticas pelo posicionamento da liderança da Igreja Católica ao tratar estes assuntos polêmicos. A SNAP - The Survivors Network of those Abused by Priests (Rede de Sobreviventes de Abuso Sexual de Sacerdotes) - citada na matéira da Ansa (acima), auxilia e denuncia casos de abusos, não só na Igreja Católica, mas também nas igrejas protestantes;
- Outros casos.

Como há "imprensas e imprensas", na Veja, Diogo Mainardi não poupou caracteres, fazendo uma maliciosa associação política com o governo Lula. Entre outras coisas, Mainardi afirma que o padre Júlio Lancellotti "será conhecido também como o coordenador da Pastoral da Mitsubishi Pajero" e que "dependendo do que a polícia descobrir, talvez não seja uma idéia tão boa assim botar o padre Júlio para cuidar de criança".

Já a revista Isto É deu o título para a matéria de O conto e o vigário. O jornalista Alan Rodrigues abre a matéria com a seguinte frase "Esta é mais uma daquelas histórias policiais que entopem publicações, levando muitos a divagações inconclusivas".

Para alguns, há a presunção de culpa do "bandido" (como afirmou Greenhalgh) e a presunção da inocência do padre Lancellotti. Para outros, há presução de culpa de ambos, já que um padre tão interessado em trabalhar com menores, em si, já poderia levantar suspeitas. O importante é que, independentemente do desfecho, as palavras foram escritas e proferidas e os juízos de valor apresentados. A reputação do padre Lancellotti, inegavelmente, foi abalada. Mesmo com uma biografia que inclui a presença marcante na Pastoral do Menor da Arquidiocese de São Paulo, desde seu início, a fundação da Casa Vida - entidade que abriga crianças abandonadas portadoras do vírus HIV e o trabalho no acompanhamento de adolescentes que cometeram atos-infracionais.

Aliás, num nível elevado, não teria sido a presunção de culpa que levou a Scotland Yard a matar o brasileiro Jean Charles, em Londres?

Capa da semana
Com o coração corinthiano ardendo, a capa dessa semana vai para o jornal campineiro Diário do Povo, pelo interessante neologismo que destaca a vitória do São Paulo, no Campeonato Brasileiro 2007.

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