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Capa da Semana (80)



Este mês a editora Globo lança mais uma edição da revista Fantástico.
Na capa, Xuxa encarna a Rainha da Sucata, parte de um ensaio fotográfico.
A partir da pagina 140, a matéria Pequenos Missionários,
assinada por Sérgio Pavarini, contou com a minha colaboração
na seleção de entrevistados e nas entrevistas, em si.

Artistas arteiros

Enquanto a turma do zOnA dA RefOrmA traduz e legenda a entrevista que fizemos com o Rory Noland no lançamento do livro A Vida do Artista, na Livraria Cultura, curta mais um trecho do bate-bola com Jorge Camargo e Jorge Rehder, no dia que Rory esteve no Projeto Raízes. Apoio: W4 Editora e Cristianismo Criativo.



zOnA 2009

No primeiro programa de 2009, acompanhamos o lançamento do livro A Vida do Artista, de Rory Noland, aqui em São Paulo, pela W4 Editora. Conseguimos uma entrevista exclusiva com o autor. Para começar, confira a opinião dos músicos e compositores Jorge Camargo e Jorge Rehder sobre artes e igreja.


 
Saiba mais em: http://zonadareforma.blogspot.com

Música, criatividade e igreja

Breves observações sobre o cenário
da música evangélica no Brasil...
ou em que pé que tá a coisa toda!

Estas entrevistas foram realizadas no último dia 03 de setembro, em São Paulo, durante o lançamento do novo álbum do cantor e compositor evangélico Stênio Marcius, intitulado Canções à meia-noite.
O show teve participação especial de Baixo & Voz, Silvestre Kuhlmann, Glauber Plaça e Thiago Vianna. Além dos músicos, também marcaram presença o Ministério Terra dos Palhaços e o artista plástico Anderson de Góes Monteiro.

eNtrEViStA mINutO # 004

Já está no ar mais um trecho da entrevista com Ricardo Gondim e Jung Mo Sung. Dessa vez, o tema é:
O diálogo inter-religioso é possível ou é demagogia?

Auto-propaganda

Últimas matérias e artigos meus publicados:

- Puro. E simples (Revista Ave Maria - Edição de julho)

- O Deus do deus da guitarra (Sítio Cristianismo Criativo)

- O elevador que é uma viagem (Revista Viagem e Turismo - Edição de maio)

Sobe!

Este mês fiquei superfeliz com meu primeiro
(e espero que não seja o último...) perfil publicado na
grande imprensa (Revista Viagem e Turismo - Editora Abril)

São Paulo
O elevador que é uma viagem
E a ascensorista que, além de apertar botões atiça a imaginação dos 'passageiros'

Marcelina e seu Tamm Line: um sonho de ascensorista

Longe dos aeroportos caóticos de São Paulo, há passageiros que ficam satisfeitos com as escalas de seu vôo. Sem check-in ou passagem, a bagagem são pilhas de documentos que pesam nos braços de quem transita pelo número 80 do Viaduto Dona Paulina. E os vôos, acredite quem quiser, são as idas e vindas do elevador, ou melhor, do Transporte Alternativo Marcela Miranda, o Tamm Line. A responsável por essa simpática brincadeira é a ascensorista Marcelina da Silva Soares. Funcionária do Tribunal de Justiça estadual há 14 anos, Marcelina reinventou sua rotina para acabar com a monotonia. Em vez de simplesmente informar o número do andar, a goiana convida seus "passageiros" a "desembarcar" em destinos turísticos. "Quinto andar, Parati. No litoral do Rio, a cidade é considerada Patrimônio Histórico Nacional", diz. O tour pode ir do litoral fluminense à Europa, de lá a São Paulo e por aí vai... Depende da inspiração de Marcelina.

"Meu serviço era muito monótono: subir, descer, apertar botão, abrir e fechar a porta", lembra-se. "Não precisava nem raciocinar. Por isso criei a Tamm Line." Inicialmente, cada andar era uma estação do metrô da cidade: "Terceiro andar, estação São Bento. Conheça o Mosteiro de São Bento, onde são vendidas roscas e bolos preparados pelos monges", informava. Surgiram, então, pedidos para que ela falasse de outras cidades. Munida de reportagens trazidas pelos passageiros do elevador, ela montou novos roteiros. Agora, Marcelina tem tantos fãs que já até foram penduradas faixas em frente ao prédio para parabenizá-la por quebrar a sisudez do ambiente. "Viajar com você é cultura", dizia um deles. Hoje em dia, elogio como esse só mesmo para uma companhia aérea de mentirinha.

Por: Fábio Davidson | Foto: Bia Pareiras | Matéria publicada na Revista Viagem e Turismo

Osso duro de roer

Noite de quarta-feira, 5 de dezembro de 2007. Em um dos auditórios do Hotel Ca’d’Oro, no centro de São Paulo, mais de 200 pessoas ouvem atentas as experiências de Rodrigo Pimentel. Não fosse um filme, do qual foi co-roteirista, talvez Pimentel continuasse apenas mais um dos ex-integrantes do BOPE, grupamento de elite da Polícia Militar carioca. Mas, Elite da Tropa (o livro) e Tropa de Elite (o filme), tornaram Pimentel ao mesmo tempo amado e odiado, pela crítica e pela sociedade. Ao lado de Pimentel, na mesa de debates esteve o teólogo Ed René Kivitz, escritor de Vivendo com Propósitos e Outra Espiritualidade. Na mediação dos trabalhos, em meio ao fogo cruzado, o Tenente-Coronel Gerson Pinheiro Gomes (Exército). Realizado por Galilea Consultoria e Treinamento, com a produção de Sérgio Pavarini e equipe, o debate apresentou um tema contundente: Não matarás: A viabilidade de uma cultura de paz.


O filme

Polêmico. Talvez o mais ameno dos adjetivos que recebeu. Fenômeno. Este adjetivo é, com certeza, também aplicado. O foco dessas opiniões é o filme Tropa de Elite, com direção de José Padilha, que estreou no último dia 05 de outubro. No primeiro final de semana em exibição nas salas de cinema, o filme atraiu cerca de 180 mil espectadores, um número alto para um filme nacional. Mas, o que mais chamou a atenção, foi a estimativa de que mais de um milhão de cópias da versão pirata (em DVD) já tinham sido comercializadas – fora o tráfego do filme disponibilizado pela Internet.

O roteiro, baseado em um Rio de Janeiro fictício de 1997, traz às telas um grupamento policial de elite, o BOPE (Batalhão de Operações Especiais), que sobe aos morros cariocas com a intenção de limpar o território. Para tanto, usa expedientes como a tortura e espancamentos. A liderança do grupo é do Capitão Nascimento (personagem de Wagner Moura), que tem fé em seu trabalho e nos meios que usa para chegar a um bom resultado. Porém, ao invés de satisfação pessoal, Nascimento passa a viver uma crise pessoal e familiar, sofre de crise do pânico e insônia. Paralelamente, o filme esbarra na questão da conivência de ONGs com a liderança do tráfico, além do outro lado da história, a sociedade classe média, que vive embaixo do morro, mas seria quem financia indiretamente a violência ao consumir os produtos do tráfico.


O nascimento de Capitão Pimentel no cinema

Na composição do personagem Capitão Nascimento, merece destaque a figura do Capitão Rodrigo Pimentel, responsável pela intensiva preparação de Wagner Moura para seu papel e co-roteirista do filme. Membro da Polícia Militar do Rio de Janeiro entre 1990 e 2001, Pimentel entrou na polícia aos 18 anos e foi capitão do BOPE de 1995 até 2000. É pós-graduado em sociologia urbana pela UERJ e hoje também atua como consultor de segurança. Sua primeira experiência com o cinema ocorreu entre 1997 e 1998, ainda na PM, quando participou do documentário Notícias de Uma Guerra Particular, dirigido por João Moreira Salles e Kátia Lund. O filme revela o dia-a-dia de policiais, moradores e traficantes, no morro da Dona Marta (RJ).

Cerca de cinco anos depois, fora da PM, Pimentel foi para detrás das câmeras. Colaborou na confecção de outro documentário, agora com o diretor José Padilha. Ônibus 174 trata de um seqüestrou que mobilizou o país, que assistiu pela televisão, o desenrolar do caso durante a tarde do Dia dos Namorados do ano 2000. Além da mídia, cerca de duas mil pessoas se aglomeraram na região do Jardim Botânico (RJ), a fim de assistir frente a frente cada lance, como se assistisse a um filme. À medida que o tempo passava, o ódio e o desejo de vingança aumentavam, levando a multidão a desejar cada vez mais a morte do seqüestrador, Sandro Rosa do Nascimento. Ao escolher o ponto de vista de Sandro, para o filme, Padilha e Pimentel foram taxados de “radicais de esquerda”, embora sempre tenham deixado claro que não queriam defender a atitude do ex-menino de rua, sobrevivente da chacina da Candelária (1993). Ao final, uma refém morta e Sandro morto no camburão da polícia, cujo comando da operação era do BOPE.

Durante as filmagens de Ônibus 174, Pimentel comentou com Padilha seu interesse em fazer uma ficção sobre a polícia do Rio de Janeiro. Enquanto o roteiro do filme era desenhado, em 2005 o ex-PM escreveu o livro Elite da Tropa, em parceria com André Batista e Luiz Eduardo Soares. Em 2007, Tropa de Elite – o filme – estoura, primeiro no mercado paralelo, e, depois, no cinema. Cinco anos após Ônibus 174, Padilha e Pimentel agora são acusados de adotar o ponto de vista da polícia para justificar a tortura e a violência, além de transformar Capitão Nascimento em herói.

Embora muitos acreditem que Capitão Nascimento é baseado apenas na história pessoal de Pimentel, este afirma que é um “personagem fictício baseado em acontecimentos ocorridos com ele e com outros amigos seus, integrantes do BOPE”.


“Não Matarás”

Como falar sobre espiritualidade, amor, paz e justiça a partir do filme Tropa de Elite? Para Ed René Kivitz, uma questão é primordial: reconhecer a “autoridade das autoridades: Deus”. Assim, é possível abordar o caráter religioso, como normatizador ou construtor da consciência.

Estabelecido este parâmetro, antes de mais nada é preciso observar que a expressão bíblica “não matarás”, integrante dos Dez Mandamentos da história judaico-cristã, melhor seria traduzida como “não assassinarás” ou “não construirás uma sociedade que mata”. Matar, sem assassinar, segundo Kivitz, é a morte que não ocorre como forma de retaliação, sem ser motivada pelo ódio.

A retaliação ou a vingança, aliás, seria uma errônea interpretação da Lei de Talião, “olho por olho, dente por dente”, já que esta determina o grau justo para que alguém exerça seu direito, uma vez que a ação de quem revida sempre supera o ato que a gerou.

Porém, em oposição aos Dez Mandamentos e à Lei de Talião, Jesus Cristo apresentou outras alternativas para lidar com a violência, dentre elas: virar a outra face, amar e abençoar o inimigo.

E como seria possível para a polícia, órgão que tem legitimidade perante o Estado e perante a sociedade, conter a violência? Para Kivitz, “conter a violência é diferente de conter bandido. Quando a polícia e o Estado entram no ciclo de ódio, eles retroalimentam a violência e precisam ser parados, pois não se constrói uma sociedade de paz sem justiça e é impossível construir uma sociedade de justiça sem a legalidade. Tudo que está acima da lei ou fora da lei é barbárie”.

Portanto, a atuação da sociedade norteia a construção da cultura de paz, através da formação de uma consciência de paz. Para isso, o teólogo cita Nelson Mandela: “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender; e, se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar”.


Vivendo na pele

Rodrigo Pimentel, em sua fala, acabou por concordar com Ed René, principalmente no ponto em que não é só a polícia a responsável pela violência, mas esta é um reflexo da construção de uma sociedade que mata. Por outro lado, Pimentel comentou a repercussão do filme, que, ao seu ver, fugiu do objetivo inicial, que era retratar o cotidiano da polícia carioca. Durante a preparação de Wagner Moura, para viver o personagem Capitão Nascimento, sempre destacou que era preciso “torturar sem ódio”. Em contraponto, concorda que “a sociedade autoriza informalmente o uso da força letal, através do chamado mandato policial. Segundo pesquisas, 91% da população carioca aprova a ação da polícia nos morros e favelas, mesmo que resulte entre 19 a 42 mortes”.

Um exemplo da reação da sociedade é o caso do Ônibus 174. “Se eu ouço disparos, corro para o outro lado. Naquele fim de tarde, o que está registrado pelas emissoras de televisão, inclusive com visão aérea, quando ocorreram os disparos, duas mil pessoas, ao invés de correr na região oposta, correram para a direção dos disparos. Ou seja, queriam a morte de Sandro”, comentou Pimentel. Outro exemplo: “Na exibição de Tropa de Elite, tanto no Leblon quanto no subúrbio, as cenas de tortura foram aplaudidas”, surpreende-se.

Porém, o ex-PM é enfático em afirmar que “a ilegalidade não funcionou na polícia do Rio. Só aumentou o número de mortes”, o que seria um exemplo prático de que realmente não é possível paz sem justiça e justiça sem legalidade.


Repercussão

“Não houve embate, polêmica e nem grandes controvérsias. Capitão Pimentel fez uma análise lúcida do problema da violência no Rio – e percebemos mais do que nas entrelinhas, de que o esforço governamental carece de inteligência. Já Ed René enfatizou a perspectiva cristã do amor e do Reino. Sem evangeliquês e com muita propriedade e equilíbrio. Duas referências para um tema tão relevante só poderia deixar gostinho de quero mais. O ponto alto veio nas respostas que os apresentadores deram aos questionamentos da platéia. É incrível como certas perguntas revelam uma inocência abismal de cristãos igrejeiros que pouco pensam e pouco compreendem os significados de sua fé”.

(Volney Faustini - diretor-executivo da Editora Atos,
consultor empresarial, preletor e blogueiro)



“Gostei do evento, foi bem relevante. Acredito que o Capitão Pimentel amadureceu suas idéias e não acredita mais na violência como solução. Fiquei surpreso com a posição do Ed René, ao afirmar que o Estado precisa deter o mal e para isso, às vezes, precisa matar, ao contrário da forma que a maioria evangélica afirma. Ele foi bem realista. Também achei interessante que ele falou que, embora todas as pessoas são redimíveis, uma coisa é ser redimida e outra é pagar pelo que fez”.

(Henderson da Silva Moret – videomaker e
mantenedor do blog OutraVia)



Registro

Confira as fotos do evento. Clique aqui (também em versão SlideShow).


Reflexão

Assim que soube do evento, lembrei-me de um texto do Frei Betto, publicado no site Adital:

Violência e Agressão

Friedrick Hacker (1914-1989), psiquiatra usamericano, analisou com propriedade as raízes da violência que impera neste mundo globocolonizado que se ajoelha reverente ao deus Mercado. A agressividade é própria da natureza animal, incluída a espécie humana. Denota o nosso espírito de sobrevivência.

Frente a determinadas circunstâncias, cada um é agressivo a seu modo: ironia, humor, astúcia desprezo, presunção etc. Violência é quando se rompe a barreira da alteridade e a força física se impõe sobre o mais frágil ou indefeso e como reação ao agressor.

Quase nunca entendemos como violenta a ação que atinge o outro, exceto quando nós somos as vítimas. Se a polícia cerca, na saída de um cinema, nosso grupo de amigos, e exige que fiquemos todos de mãos na parede e pernas abertas, enquanto nos revista, consideraremos uma violência. Se do alto da janela do apartamento vemos a mesma cena, com a diferença de que os detidos são jovens de periferia, admitimos que a polícia cumpre o seu dever.

Sentimos mesmo certo alívio por saber-nos protegidos pelo Estado que, sustentado por nossos impostos, nos oferece segurança. Se um dos amigos protesta pelo modo como está sendo apalpado e recebe em resposta um empurrão, fica patente a violência. Para o policial em nenhum momento houve violência. Julga apenas que cumpre o seu dever.

É o caso do pai que, ao retornar do trabalho, descobre que o filho mais velho bateu no mais novo. Para dar-lhe uma lição de que nunca deve bater em alguém mais fraco do que ele, o pai dá uma surra no mais velho. Sem nenhuma consciência de que pratica exatamente o que recriminou.

É essa contradição entre o discurso sobre a educação e os métodos aplicados que dissemina o comportamento violento. Por que o mesmo ato cometido por um é repreensível e, por outro é, legítimo? Esse pai jamais se considerará violento. Se questionado, dirá apenas que é seu dever educar.

Esta a estrutura em que a violência se apóia: é sempre praticada, como se fosse ato de justiça, legitimada por uma razão superior, seja o Deus dos cruzados ou dos fundamentalistas; a defesa da propriedade privada; o liberalismo do Mercado; os deveres de uma boa educação etc.

A violência é a mais primária forma de manifestação da agressão. Toda a estrutura da sociedade, com suas leis e instituições, contém boa dose de agressividade, assim como a disciplina que os pais impõem à boa educação dos filhos. Ela favorece a nossa convivência social e reprime nossas tendências auto-destrutivas.

O melhor exemplo de agressividade sem violência é o esporte. Já a violência é rasteira, cruel, repetitiva, o que permite à polícia identificar o modus operandi de criminosos, pois ela se propaga sem a menor criatividade, exceto os equipamentos bélicos concebidos para torná-la mais e mais brutal e massiva.

Para saber lidar com a agressividade é preciso certo refinamento de espírito. Já a violência é burra, não exige educação, está ao alcance de qualquer um. O mais grave é que nos acostumamos à prática da violência. Covardes, não ousamos usar as próprias mãos, mas aplaudimos quando a polícia espanca o bandido; a lei retroage a idade penal; o plebiscito libera o comércio de armas; o Estado decreta a pena de morte etc. Sem nos dar conta de que nos deixamos dominar pela parte mais primária de nosso cérebro, lá onde se aloja o réptil que nos precede na escala evolutiva e do qual somos tributários.

Se uma sociedade perde a sensibilidade à violência e ignora a limite que deve perdurar entre ela e a agressividade, isso aquece o caldo de cultura do autoritarismo. O sentimento de humilhação que a Primeira Guerra impôs ao povo alemão favoreceu a ascensão do “vingativo” Hitler. A derrota de Bush pai no Iraque, em 1991, impeliu boa parte da opinião pública dos EUA a apoiar, em 2003, o filho disposto a “lavar a honra”.

Ninguém é capaz de atacar seu semelhante, a menos que produza, entre si e o outro, a dessemelhança. Assim, o homem bate na mulher por considerá-la imbecil; o branco agride o negro por encará-lo como inferior; a grande nação decreta guerra à pequena que se nega a abrir mão de sua soberania; o líder popular passa a ser demonizado pela mídia, de modo a deslegitimar a causa que defende. Essa postura distancia, desculpabiliza, abre caminho à violência como legítima e até legal.

Não convém erradicar a agressividade própria do humano e que nos impele a alcançar metas e conquistas. O desafio é fazer a distinção ensinada por Hacker e criar uma cultura baseada no mais primordial paradigma da alteridade, que tem a sua origem Naquele que, radicalmente diferente de nós, nos criou à sua imagem e semelhança.

Frei Betto é escritor, autor de Treze contos diabólicos e um angélico (Planeta), entre outros livros.

Uma questão de amor e responsabilidade

Reportagem e fotos: Fábio Davidson (março/2006)

Biológico ou adotado? Em geral esta não é a primeira pergunta que fazemos quando somos apresentados ao filho de alguém. Mas, por muito tempo, a sociedade fez esta divisão, gerando situações constrangedoras e favorecendo até mesmo que a palavra adoção fosse omitida. O assunto é tão sério que até um crime, apelidado de adoção “à brasileira”, chega a ser cometido, em nome do amor.
Nos últimos anos, porém, um processo inverso começa a acontecer. Graças a personalidades nacionais como Marcello Anthony, Juca Chaves e Elba Ramalho, ou internacionais como Angelina Jolie, Sharon Stone e Gerhard Schroeder, a adoção passou a encontrar um espaço positivo nas páginas dos jornais e revistas e nas notícias de TV e rádio.
Este ainda é um pequeno passo. Uma triste estatística revela que o perfil das crianças adotadas não mudou muito no decorrer dos anos. As meninas recém-nascidas e brancas ainda são as principais procuras para adoção, enquanto há uma fila de crianças com mais de 3 anos esperando para serem adotadas
Pelo Brasil afora o assunto tem sido debatido. Em 1996 aconteceu o I ENAPA (Encontro Nacional das Associações e dos Grupos de Apoio à Adoção), na cidade de Rio Claro, interior paulista. O evento, que ocorre anualmente no mês de maio, deu origem a um decreto Federal que instituiu o dia 25 de maio como Dia Nacional da Adoção (Lei nº 10.447, de 09/05/2002).
Ao analisar estatísticas, porém, ignora-se que cada número envolve uma história de vida e é impossível generalizar o assunto sob o nome adoção. São diferentes histórias, dramas, encontros e desencontros. Como o da jornalista Yara Rocca, 40, que conheceu sua mãe biológica depois de três décadas.
Yara transformou sua história em um livro – A força de um cordão umbilical – onde revela as ansiedades de uma filha adotiva que só conheceu sua verdadeira história aos 31 anos de idade. E mostra que o choro e a tristeza do passado um dia podem se reverter em alegria e esperança.

Conte um pouco da sua história.
Há 40 anos atrás, em março de 1966, com cinco dias de vida, em fui dada pela Joana, minha mãe biológica. Ela me deu para umas freiras que trabalhavam em uma creche no Jardim Paulistano e cuidavam dos filhos dos empregados que trabalhavam nas casas da região. Meu pai adotivo, que era um dos mantenedores desta creche e queria adotar uma menina, foi chamado pelas freiras e imediatamente foi me buscar. Aí começaram 31 anos de altos e baixos, muita felicidade, muito choro, muita alegria, muito sofrimento, cada hora um jeito. E muita vontade de conhecer os pais biológicos, em especial o pai biológico, que diziam que tinha me rejeitado.

Como você encara sua adoção?
Minha adoção seria perfeita, se meus pais não tivessem mentido, ou melhor, aumentado demais a história. Se tivessem me posto com os pés no chão, com a minha verdade, acredito que não teria passado por metade dos problemas emocionais pelo que passei e que geraram até problemas físicos. Então eu acho que os pais que querem adotar os filhos primeiro têm que se resolver e depois adotar aquele ser. Filho adotivo não serve para tapar buraco de relação, para salvar casamento, para você se realizar nele, pois filho adotivo é como qualquer filho, veio ao mundo e você tem que amar. O problema do meu pai foi idealizar muito a filha que ele adotou. E isso ficou pior quando a minha irmã veio três anos depois. Hoje ela tem 37 anos, é limítrofe e deficiente auditiva. Aí eu tive que valer por duas, tinha que compensar e eles exigiam muito de mim. Isso foi um peso.

Mas essa cobrança também ocorre com os filhos biológicos. Você acredita que o filho adotivo sinta a obrigação de ser sempre “o primeiro” para corresponder à adoção?
É como se tivesse que ser sempre boazinha, afinal, se não fossem eles, o que seria de mim? Apesar que os meus pais nunca fizeram isso como uma imposição para mim, mas eu sentia que estava devedora. Puxa vida, eles se sacrificam tanto por mim...

Quantos anos você tinha quando soube que era adotada?
Eu estava brincando com uma amiga no quintal e, do nada, meu pai chamou a gente dizendo que iria contar uma história. Aí ele falou que eu vim de outra forma ao mundo.

Você já questionava alguma coisa?
Eu perguntava por alguma foto da minha mãe grávida e também não me achava parecida com meus pais. Eu era loirinha, de cabelo claro e minha mãe era morena clara. E no alto dos meus quatro anos, percebia que eu não tinha a cara de um nem de outro. Aí meu pai contou uma estória mirabolante. Mas acho que ele errou por amor. Ele quis amenizar um possível sofrimento por eu ter sido rejeitada. Ele também não sabia a história real mas, na cabeça de quem adota está: “Rejeitaram, eles não queriam o bebê”. E como alguém poderia imaginar que uma criança de 4 anos iria ficar remoendo aquele assunto por mais de 30 anos? Ele quis me proteger tanto que acabou me prejudicando. Ao invés de aceitar o amor deles, comecei a questionar a rejeição do outro, me perguntando: “Por quê me deram?”.

A sua adoção foi a chamada adoção “à brasileira”?
Eu tive uma adoção à brasileira, que significa receber a criança, ir ao cartório e registrar a criança como se fosse sua e se a mulher tivesse tido o parto em casa.

Você acha que este tipo de adoção cria uma ilusão para os pais, como se tivessem gerado a criança? A adoção à brasileira cria uma mentira. Os pais projetam que aquele filho é deles. Por um lado, acho legal, pois a criança não é tratada como filha de criação, como era falado antigamente. Eu nunca ouvi isso. Por outro lado, a sua alma sente que há algo errado ali. Fica um conflito interno, que, no meu caso, alterou completamente meu comportamento, meus sentimentos, a minha essência, que eu abafei para me tornar uma outra pessoa.

Quando a adoção era tratada em notícias de jornal ou novelas, isso te afetava?
Não, porque eu nunca fui tratada como filha adotiva. Sempre me trataram como filha legítima, inclusive os parentes. Todo mundo me adotou, foi uma inclusão total. Hoje, quando eu vejo notícias, me entristece o fato das mães jogarem seus filhos no lixo, na lagoa, no estacionamento. No meu caso foi diferente. Tanto a mãe que me deu, quanto a que me pegou tinham muito cuidado para que eu tivesse um bom futuro.

Você acredita que atualmente há uma mudança no comportamento dos filhos adotivos, graças a Internet, por exemplo, onde podem compartilhar suas histórias de uma forma mais aberta? Hoje eu dou graças a Deus pela Internet e em especial pelo Orkut [rede de relacionamentos]. No Orkut temos comunidades com filhos adotivos, mães que adotaram, crianças institucionalizadas, abrigos, associações, etc. O tema adoção está sendo mais revelado para a sociedade do que antigamente, quando parecia um pecado tocar no assunto. Artistas também viabilizaram esta aceitação.

Você escreveu um livro. Como foi colocar no papel a sua vida e qual a repercussão do livro?
Eu conheci minha mãe biológica em 97, quando eu tinha 31 anos. Desde que eu a conheci, na hora que eu me despedi dela me veio este nome, “a força de um cordão umbilical”. Não entendia este nome, era uma coisa minha com Deus, mas eu sabia que tinha que escrever este livro. Depois eu consegui entender o porquê deste título. Em um primeiro momento pensei que era porque minha mãe [biológica] também estava orando por mim, preocupada comigo, comigo na mente dela há 30 anos! E eu pensei, o sangue fala mais alto, essa mulher estava me atraindo até ela. Mesmo eu não tendo endereço e tendo como parâmetro uma mentira que não ia me levar para lugar nenhum eu a encontrei. Depois comecei a entender que o nome do livro se referia à força de um cordão umbilical que nos leva até Deus. Eu vim ao mundo pela Joana e fui criada e estou viva até hoje graças a Nena, pois alguém lá em cima escreveu que tinha que ser assim. Só vim ao mundo por essa forma. Mas quem desejou e planejou que eu estivesse aqui foi Deus. E, naquele dia, eu senti Ele tão comigo, Ele tornou aquele dia tão único e milimetricamente planejado e caprichoso em cada detalhe, que superaria qualquer choque ao encontrar minha mãe biológica.

Qual você considera a maior dificuldade enfrentada pelo filho adotivo?
O medo de ir atrás dos pais biológicos, o medo do que poderia encontrar. Também muita revolta, mágoa e mal entendido. Na Internet vejo que os filhos generalizam, acham que porque foram dados, foram rejeitados. Eu entendi hoje, depois de conhecer minha história, que eu não fui rejeitada, minha mãe biológica me amou e me ama até hoje. Mas ela não ia dar conta de ficar comigo com a vida que ela tinha. Então, por amor, ela me deu. E muitos filhos não sabem a realidade e acabam pré-julgando.

Parte desta culpa não estaria nos pais adotivos, por terem medo de perderem o filho adotado para os pais biológicos? Eu acho que os pais fazem de tudo para que os filhos não achem os pais biológicos, com medo de perdê-los um dia, serem trocados. Eu vi muito este medo na minha mãe, é uma fantasia. Minha mãe tinha medo que eu conhecesse minha mãe biológica e eu visse que ela “era melhor”. Ela se achava pior por não ter conseguido gerar um filho, se considerando inferior à mãe biológica. Os pais acabam fazendo de tudo para inviabilizar o encontro, não apresentam provas nem pistas para o filho ir atrás. E quando percebem que o filho está interessado em saber da origem, ficam magoados. E, muitas vezes, por isso, o filho recua.

Há três tipos de adoção: o aberto, o semi-aberto e o fechado, que é o mais comum no Brasil. Qual você considera o ideal? Eu acho que uma vez que deu, acabou. Tem que separar, até chegar o momento do adotado querer conhecer os pais biológicos. E os pais adotivos têm que dar abertura para isso acontecer.

Como o processo de adoção pode ser melhorado? Quem vai adotar, o casal, tem que ter 100%, não é nem 99%, é 100% de desejo de ser pai e mãe, assim como os pais que querem e podem gerar um filho. E, uma vez que você quer ser pai e mãe, através da adoção, deve deixar de lado a fantasia, principalmente quanto à questão de ficar escolhendo o tipo de criança.


IMPORTANTE
Está apta para adoção qualquer pessoa maior de 21 anos, independentemente do estado civil, desde tenha pelo menos 16 anos a mais do que a criança a ser adotada. O primeiro passo para adoção é procurar o Juizado da Infância e Juventude, onde é feito um Cadastro de Pretendentes para Adoção. “Adotar” uma criança, registrando-a como se fosse filha (adoção à brasileira), é crime e os pais biológicos têm chances de reaver a criança. Para que uma adoção tenha efeitos jurídicos plenos deve ser processada e autorizada judicialmente. Desta forma, o filho não recebe qualquer ressalva ou identificação que possa diferenciá-lo do filho biológico e são cancelados os vínculos familiares anteriores, impedindo quaisquer questionamentos futuros pelos pais biológicos.

Presença brasileira na reconstrução do Timor Leste

Reportagem: Fábio Davidson (abril/2005)
Fotos (reportagem): Fábio Davidson
Fotos (Timor Leste): Dora Martins


Fortalecer e consolidar a Justiça do Timor Leste. Esta é uma das missões da juíza brasileira Dora Aparecida Martins, que viaja para o país ainda neste ano. Durante um ano, ela trabalhará com os processos da Justiça local e auxiliará na formação de juízes timorenses, como parte do Projeto de Cooperação Brasil-Timor Leste.
Dora Martins já conhece o país. “Participei, como juíza internacional, da Missão de Paz da ONU, UNMISET United Nation Mission of Suport of East Timor , que vem atuando naquele país desde 1999”. A juíza fez parte do Painel de Crimes Graves, um tribunal formado por juízes internacionais e timorenses, para julgar os crimes de guerra ocorridos em 1999, ano em que os cidadãos timorenses votaram pela independência da Indonésia, através de um plebiscito, com o apoio da ONU.
Os brasileiros marcaram a História do Timor. No ano 2000, Sérgio Vieira de Mello foi o diretor de operações da ONU no Timor Leste, para traçar o regramento básico e necessário para a estruturação do país. Após sua saída do Timor, Vieira de Mello foi indicado, em 2003, como representante especial da ONU no Iraque, onde morreu em um atentado à sede da organização em Bagdá, em 19 de agosto de 2003.
Outra brasileira conhecida pela população timorense é a atriz Lucélia Santos. O advogado e jornalista timorense José Ramos-Horta convidou a atriz Lucélia Santos para a cerimônia da entrega do Prêmio Nobel da Paz recebido por ele em 1996, devido a sua luta pela causa do Timor. Lucélia ficou conhecida entre os timorenses através das novelas e por sua participação, com outros artistas e intelectuais brasileiros, de um movimento intitulado “Artistas Pró-Timor Leste”, nos anos 90. Em 2001, dirigiu o documentário Timor Lorosae, sobre a luta do país. (Saiba mais sobre o filme em www.timor-ofilme.com).
A juíza Dora Martins permaneceu durante 347 dias no Timor, entre 2003 e 2004. Neste período pôde conhecer e se integrar à cultura, língua e povo local. Justamente pela atuação da juíza brasileira neste período, o governo timorense solicitou sua indicação para voltar ao país em 2005.
Com a juíza, irão um promotor e de dois defensores públicos brasileiros. O projeto é estruturado pela Agência Brasileira de Cooperação, um órgão do Itamarati vinculado ao Ministério das Relações Exteriores. O convênio, firmado em 2004 entre os governos brasileiro e timorense, visa o desenvolvimento de projetos de apoio nas áreas de saúde, educação e Justiça.
O mês de maio é importante na História do povo da República Democrática de Timor-Leste. Em 20 de maio de 2002 foi promulgada a Constituição do país, marcando o retorno à democracia no país. Este é considerado o verdadeiro Dia da Independência. Há quase trinta anos, em 28 de novembro de 1975, o país havia declarado sua independência, mas esta durou pouquíssimo tempo, pois a vizinha Indonésia acabou dominando o território, impondo uma ditadura que durou até o plebiscito de 1999.

Um país tropical
O Timor tem apenas 170 quilômetros de largura, com um terreno irregular, muitas montanhas e floresta virgem. Sua travessia, de Norte a Sul, pode levar mais de oito horas. “Para quem sai deste imenso Brasil, o Timor é uma minúscula ilha, cercada por um mar azul e transparente e assentada sobre uma imensidão de corais de todas as cores e formas. Parece a cidade de Parati”, afirma Dora Martins. “Conhecia a história [do Timor] e achei muito instigante, muito estimulante a idéia de trabalhar em um país que estava começando. Era para ficar por quatro meses e acabei ficando um ano”.
As marcas da destruição, ocorrida em 1999, está nas casas, prédios e nas vidas das pessoas. Cartórios e documentos foram destruídos, restando a busca da identidade nas certidões de batismo arquivadas nas igrejas que foram poupadas. Mas, ao invés de trazer amargura fizeram do timorense um batalhador. “São magros, mas fortes, os timorenses. Estatura mediana, olhos ora asiáticos, ora redondos, mas sempre brilhantes e sorridentes. Após ganharem a confiança, eles exibem largos sorrisos e nos chamam ‘malai’ e nos perguntam o nome e exultam ao saber que somos do Brasil. Ronaldo, no futebol, e Roberto Carlos, na música, são ídolos!”, observa a juíza brasileira. A presença portuguesa na arquitetura e na gastronomia, somados ao clima tropical, facilitam a adaptação dos brasileiros no país.
O país tem mais de trinta línguas, sendo que o português e Xo tétum (a língua mãe) foram adotados como idiomas oficiais pela Constituição de 2002. “As crianças estão a aprender o português, que também é falado pelas pessoas com idade acima de 45 anos. A geração que nasceu e cresceu sob o domínio indonésio foi obrigada – sob pena de morte – e educada a falar o chamado bahasa (idioma) indonésio”, acrescenta Dora Martins, destacando que, “algumas vezes, para fazer um julgamento era necessário três ou quatro traduções com tradutor simultâneo. Às vezes uma audiência para uma testemunha durava mais de três horas”.

O Timor e o mundo
Atual presidente, o ex-guerrilheiro Xananã Gusmão, é venerado pela população. Foram 20 anos de guerrilha. Em 1994 Gusmão deixou-se prender e atraiu mais ainda a atenção dos organismos internacionais. Em 1996 o prêmio Nobel da Paz foi concedido ao bispo de Dili, Dom Carlos Ximenes Belo e a José Ramos Horta. Em 1997, o presidente Sul-Africano, Nelson Mandela, foi a Jacarta, capital da Indonésia, onde se encontrou com Xanana Gusmão. Mandela passou 27 anos preso por estar à frente da resistência negra ao Apartheid, regime de segregação racial ocorrido na África do Sul.
Depois da independência, o país passa a sofrer as mudanças e adaptações com o Ocidente. Antigamente, por exemplo, não havia concentração de renda. Todos viviam a mesma situação de pobreza, embora não existisse miséria. Com a implantação das novas estruturas, já há indícios de corrupção e surgimento de uma elite.
A estrutura judicial também provoca alterações no estilo de vida do timorense. Antes, a Justiça era exercida dentro de um regime tribal, onde os conflitos eram julgados pelo chefe da aldeia, que também impunha as penas. Com a mudança para o padrão ocidental, o timorense não consegue entender como alguém pode julgá-lo sem conhecer sua vida, seu ambiente social. Ao ser julgado pelo chefe da aldeia, o castigo era, também, uma punição social, perante aqueles com quem o indivíduo convive.
Mas a reconstrução é um processo necessário. Quando a Indonésia desocupou o país, destruiu todas as estruturas dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, que estavam diretamente ligadas ao governo indonésio. A maior parte dos profissionais liberais saíram do país. É necessária, então, a reestruturação da área educacional. O Liceu (faculdade timorense) tem vários cursos na área de humanas, como Direito, Administração e Letras. Mas, segundo Dora Martins, “não há faculdade de caráter tecnológico, como Medicina, Odontologia, Engenharia, pela falta de estrutura”.

Curiosidades
Água – “Udan tun Matebian tanis” é uma frase popular que significa “a chuva é o choro dos antepassados”. A água está presente o cotidiano timorense, seja em representações mitológicas, através do seu poder de “cura” e nos rituais.
Galo – Durante a Assembléia Constituinte, foi proposta a inclusão de um galo na bandeira nacional. Este animal tem um papel relevante na cultura do país, sempre acompanhando o timorense, mesmo em momentos trágicos e perigosos. Por outro lado, a luta de galo é o jogo mais popular no Timor Leste.
Artesanato – A cestaria é uma das atividades mais comuns em Timor Leste, tanto na produção de peças para venda ao turista, como para uso pessoal. A matéria-prima mais usada são as folhas de palmeiras, entrelaçadas de diferentes formas: diagonal, ortogonal e hexagonal. Também são usadas folhas de coqueiro, casca de côco, sândalo, chifre de búfalo, casca de tartaruga, etc.
Caça submarina – Os habitantes da pequena ilha de Ataúro desenvolveram uma curiosa espingarda para “caça submarina”, em madeira e bambu e com um longo arpão de ferro. O equipamento conta ainda com “óculos de mergulho” de osso ou bambu, cujas lentes são formadas por dois fundos de garrafa colados com cera de abelha.

Dados
População com 0-14 anos de idade: 49%
População com 15-64 anos: 49%
População com mais de 65 anos: 2%
População urbana (censo de 1990): 7,8%
População vivendo com menos de US$1/dia (2001): 20%
População vivendo com menos de US$2/dia (2001): 63%
Esperança de vida à nascença (2001): 57,4 anos (H: 55,6; M:59,2)

Fontes: FMI; Relatório do Desenvolvimento Humano de Timor Leste 2002 (PNUD); Inquérito aos sucos (2001); Inquérito às famílias (2001); InfoTimor.

A longa luta do bravo povo timorense
José de Almeida Amaral Júnior *

Situado em uma ilha do arquipélago indonésio, no Sudeste Asiático, com pouco mais de 14.600 km2 e 770 mil habitantes o pequeno Timor Leste consegue nos últimos anos, a duras penas, respirar o refrescante ar da liberdade.
Ex-colônia de Portugal, que por lá estabeleceu entrepostos comerciais desde 1520, viveu brevemente o sonho da alforria quando em 1974 os socialistas lusos realizaram a Revolução dos Cravos e lhes acenaram a possibilidade da emancipação. Esta, contudo, foi brutalmente abortada pela ação das tropas de Suharto, ditador da vizinha Indonésia, que ocupou o país em 1975. Até o ano de 1999 o povo do Timor Leste (86% católico) viveu sob o domínio indonésio (54% muçulmano) e resistiu sob brutal repressão cujo resultado computou a eliminação de pelo menos 200 mil habitantes e um grande empobrecimento do país.
Em 1996 o Prêmio Nobel da Paz é concedido a dois defensores da independência: o bispo de Dili (capital de Timor Leste), Carlos Ximenes Belo e o ativista José Ramos-Horta. No ano seguinte, a crise econômica enfraqueceu o regime ditatorial que passou a ser atacado por revoltas populares. Há a negociação internacional para um referendo em 1999 sobre a opinião timorense quanto ao domínio sofrido. O resultado revelou o desejo da ampla maioria pela autonomia. Ocorre, então, um massacre promovido por indonésios até a chegada dos “capacetes azuis” da Organização das Nações Unidas. Desse momento até 2002, ano oficial da independência, a condução de Timor Leste foi exercida pela Administração Transitória da ONU. Xanana Gusmão foi eleito presidente.
Mais de 90% dos timorenses vivem da agricultura cafeeira, seu grande produto de exportação. Petróleo marítimo foi descoberto nos anos 90. As Nações Unidas e países estrangeiros doaram então US$ 2,2 milhões para a reconstrução do território arrasado pelas milícias pró-Indonésia após o plebiscito. O governo brasileiro enviou uma delegação para também auxiliar a reorganização. Nossos patrícios notaram que os timorenses nos tomam como “o irmão mais velho das ex-colônias de Portugal”, isto é, uma referência. Nossa língua em comum, portuguesa, foi usada como estratégia de preservação da própria identidade nacional durante a invasão Indonésia quando os movimentos de resistência usaram a cultura portuguesa como sinal de diferença do Timor Leste em contraposição aos opressores. O contundente trabalho cinematográfico realizado em 2002 pela atriz Lucélia Santos: "Timor Lorosae - O Massacre que o Mundo Não Viu", com apoio de registros históricos feitos pelo documentarista inglês Max Stahl, retrata essa dramática saga. É uma prova da tenacidade de uma diminuta nação que acreditou sempre na conquista da sua autonomia. Que sirva de exemplo a todos os povos. Viva o Timor livre!
José de Almeida Amaral Júnior é economista,
professor e músico na horas vagas

Pipoca e Jornalismo

Sérgio Rizzo conta como iniciou no jornalismo cultural, dá dicas para quem deseja seguir esta área e fala sobre o início do Instituto Livre de Jornalismo

Reportagem: Fábio Davidson (Março/2005)
Foto: Raquel Matsushita

Onde cinema e jornalismo se cruzam? Em Sérgio Rizzo, certamente é uma das opções. Formado em jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo e mestre em Artes/Cinema pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), Rizzo é crítico de cinema do jornal Folha de S Paulo e das revistas Set e Educação, além de manter colunas e diversas publicações.

Você sempre gostou de cinema? Qual o primeiro filme que lembra ter assistido?
Aprendi a gostar de filmes e seriados de TV com o meu pai, ainda criança, no final dos anos 60. Mas foi minha mãe quem primeiro me levou ao cinema, para assistir a uma produção Disney cujo nome não me lembro; tinha algo a ver, se a memória não me trai, com "montanha encantada". Não era desenho animado, mas um filme com atores. Fiquei impactado com o tamanho da sala (o Cine Ipiranga), a escuridão, o som, o tamanho da tela e as legendas em português.

Quando começou a escrever sobre cinema?
No final de 1981, aos 16 anos, quando o jornalista Hirão Tessari, editor de dois jornais que já não circulam mais – a "Gazeta da Vila Prudente" e o "Jornal da Vila Formosa" – me desafiou a escrever sobre filmes depois que enviei a ele duas cartas reclamando de alguns textos sobre cinema que haviam sido publicados pelo crítico de teatro dos jornais.

Circula uma história sobre você ter falsificado sua carteira escolar para assistir John Travolta...
Eu tinha 12 anos quando "Os Embalos de Sábado à Noite" foi lançado no Brasil. A censura era 16 anos. A curiosidade em relação ao filme, incontrolável. Eu e um amigo resolvemos falsificar a carteirinha escolar e tentar a sorte no Cine Copan. Como era maior do que os garotos da minha idade, entrei; meu amigo, mais baixo, quase foi barrado, mas acabou entrando também. Depois, me especializei em falsificar carteirinhas, algumas de excelente qualidade, até completar 18 anos.

O centro de São Paulo era onde se concentravam as melhores (e mais bonitas) salas de cinema. Quais foram os principais motivos que levaram a degradação da região?
Não sei dizer ao certo. Cresceu a violência urbana, aumentou o desemprego, parte do comércio e dos serviços se deslocou para a região da Paulista e para os shoppings. Suponho que as razões envolvam diversos outros aspectos.

Há esperanças de renascerem cinemas no formato antigo ou a era dos cinemas de shopping e outlets é irreversível?
Não acredito nisso. A indústria de cinema não está mais formatada para as salas antigas, com capacidade para mil pessoas ou mais. A tendência está com os multiplexes.

O que significa cinema de retomada?
Foi o nome dado pela imprensa, e adotado pelo Ministério da Cultura, para se referir ao ressurgimento da produção nacional depois do governo Collor, quando o número de longas brasileiros no mercado foi reduzido a quase zero.

A qualidade dos filmes brasileiros aumentou de Carlota Joaqunia até Redentor?
Houve uma evolução no acabamento médio.

O que representa a Vera Cruz e a Atlântida para o cinema brasileiro?
Existem livros a respeito, e o assunto não se esgota em uma frase. A Atlântida representou um dos momentos de comunicação do cinema brasileiro com as grandes platéias populares. Já a Vera Cruz foi mal-sucedida tentativa de reproduzir no Brasil o funcionamento do cinema industrial.

Qual o efeito do fim da Embrafilme para o cinema nacional?
No primeiro instante, representou o "zeramento" da produção. Hoje, nota-se que ela faz muita falta como distribuidora de filmes – chegou a ser a maior do país.

A Ancinav pode fortalecer o cinema nacional?
Espero que sim, mas depende da definição exata de seu papel.

O cinema brasileiro tem um padrão estético? A pobreza/miséria é o que mais "vende" para o mercado externo? Há um predomínio da estetização da pobreza?
Não. Não diria isso em termos genéricos. É bem verdade que há um apelo terceiro-mundista em filmes sobre miséria que toca parcela do público na Europa e nos EUA. Mas "Dona Flor" não era sobre isso e foi um dos maiores, senão o maior, êxito internacional do cinema brasileiro.

O público brasileiro não se identifica com o cinema "realidade" indiano ou iraniano, por exemplo?
O público brasileiro de cinema se assemelha muito, hoje, ao americano; por conseqüência, consagra filmes dirigidos ao público jovem. Esses filmes aos quais você se refere atingem pequenas parcelas do público no mundo inteiro (no caso do iraniano, inclusive dentro do seu país; Abbas Kiarostami, por exemplo, é um cineasta quase "maldito" no Irã). É assim também no Brasil.

Jornalistas tornam-se bons documentaristas?
SR – Depende do jornalista. E de diversos aspectos que não se relacionam apenas com a profissão.

O Brasil possui bons documentaristas? Qual o motivo que raramente são encontrados nas locadoras?
As safras recentes de documentários inserem a produção brasileira entre o que de mais significativo se faz hoje no mundo. É uma pena que eles demorem a chegar às locadoras, mas estão chegando – "Ônibus 174", "O Prisioneiro da Grade de Ferro", "Edifício Master" e "Fala Tu" são lançamentos recentes.

Documentário é realidade?
Claro que não. É uma representação da realidade. A diferença básica em relação à ficção é que os personagens e os fatos existem (ou existiram). Mas, na tela, se apresentam como representação.

O Oscar representa a opinião do público ou é o próprio formador de opinião?
O Oscar representa a opinião dos 5 mil e poucos membros da Academia de Hollywood. Essa opinião pode coincidir com a de parcela do público.

Concorrer ao Oscar é um mérito ou desmérito para o cinema nacional?
É estratégico para a inserção do cinema brasileiro no mercado internacional.

Faculdade forma bons jornalistas ou cineastas?
Pode formar. Depende da escola, dos professores e do aluno em questão.

Jornalismo cultural é um bom campo?
É um campo no qual me dou bem. Não sei se ele, no dia-a-dia, corresponde à imagem que estudantes fazem.

O que é necessário para ser um bom jornalista nesta área?
Além dos requisitos básicos para se tornar jornalista, como domínio de texto, um bom repertório nas áreas em que pretende se especializar.

Gosto pessoal X Visão crítica. Há um conflito de interesses ao construir uma crítica?
Não. Gosto se discute – logo, pode dar origem a uma boa crítica.

O jornalismo cultural sofre com as fontes "viciadas"?
Há uma certa repetição de personagens no noticiário. Os agentes culturais reclamam, com razão, desse privilégio.

Sua dissertação de mestrado foi sobre Woody Allen. O que o levou até este tema e quais foram suas conclusões?
Gostava, e ainda gosto muito, dos filmes de Woody Allen. Em busca de temas para analisar na sua obra, me detive sobre dois: o alusionismo (ou o que se costuma chamar, simplificadamente, de "referências" e "homenagens" a outros filmes e cineastas) e o desenvolvimento do clown (a "máscara" humorística que ele usa, ou outros atores usam em seu lugar, em quase todos os seus filmes). Apontei, na dissertação, o filme "Memórias" (Stardust Memories) como um ponto de virada em sua carreira e momento propício para análise daqueles dois temas. Devo a mim mesmo a revisão e atualização desse trabalho, concluído em 1994, para publicação.

Como surgiu a idéia de criar o Ijor (Instituto Livre de Jornalismo)?
Um grupo de ex-professores da Faculdade Cásper Líbero, associado a outros jornalistas e pesquisadores, julgou importante se manter unido com o objetivo, no curto prazo, de promover atividades relacionadas à formação e ao aperfeiçoamento do jornalista, e, no longo prazo, de constituir escola de jornalismo, não necessariamente de graduação, talvez um centro de estudos e pesquisa.

Qual foi o melhor filme (nacional e estrangeiro) que você assistiu em 2004?
Foram muitos os filmes que me agradaram ao longo do ano. Alguns deles: "Passagem Azul", "O Pântano", "Dogville", "O Retorno", "Peões", "O Prisioneiro da Grade de Ferro".

Qual sua recomendação para o estudante que gostaria de seguir a especialização em jornalismo cultural?
Que procure investir na formação de repertório, o que inclui ler muito (e organizadamente) sobre as áreas de sua preferência, conhecer ao menos as obras referenciais (os marcos históricos, digamos) e acompanhar de perto a produção contemporânea.

A sobrevivente

“Nazismo é um câncer que se espalhou pelo mundo”, afirma uma das sobreviventes do nazismo

Reportagem e fotos: Fábio Davidson (março/2005)


Símbolo de resistência e engajamento. É difícil resumir, mas estes são alguns dos adjetivos que podem traduzir o que transmite Cristin Goldberg, que conversou com os alunos no auditório da UNINOVE, Campus Memorial, em novembro de 2004, apresentando a palestra "Histórias de uma Sobrevivente da Segunda Guerra Mundial".

Goldberg nasceu em 1916, na Tchecoslovaquia, país que foi entregue à Alemanha nazista pela Grã-Bretanha e França para apaziguar Adolf Hitler, em 1938. Jovem estudante de Medicina, fez parte de grupos de resistência, foi presa pela polícia nazista – a Gestapo – e enfrentou prisões, inclusive em campos de concentração. Conseguiu fugir algumas vezes e chegou ao Brasil em 1946. Transformou sua história em livros autobiográficos, dos quais quatro já foram publicados. Tornou-se Coronel de Honra da Polícia Militar do Estado de São Paulo.

O professor José de Almeida Amaral Júnior abriu o evento, apresentando Cristin que, em seguida, falou: “Vocês vão ver quais as ‘qualidades’ de Hitler”, através do documentário “Nazismo Nunca Mais!”. O documentário, organizado por Ben Abraham, escritor e jornalista polonês sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz, que veio para o Brasil em janeiro de 1955, mostras as atrocidades cometidas por Adolf Hitler e o governo nazista na Alemanha. As perguntas iniciais do filme ainda ressoam: “Um gênio ou um louco? Ou Ambos? Um patriota ou um traidor?”.

A história de como um partido formado por um “bando de desordeiros” tornou-se, em pouco tempo, um forte partido com milhares membros, tem suas raízes no final da Primeira Guerra Mundial e as penas impostas a Alemanha no pós-guerra (confira no quadro ao lado, abaixo...). Graças a sobreviventes com o Abraham e Goldberg, é possível ter uma noção da tirania imposta pelo regime nazista. Ao mesmo tempo, é inacreditável tomar conhecimento de que movimentos neo-nazistas renascem em diversos pontos do mundo.

E esses movimentos não estão distantes do Brasil. Há cinco anos, o assassinato do adestrador de cães Edson Néris da Silva, com 35 anos, chocou São Paulo e o país. Ele foi assassinado na Praça da República (centro de São Paulo), na noite de 6 de fevereiro de 2000, pois andava de mãos dadas com seu companheiro. Sua morte foi atribuída a 25 membros de uma gangue conhecida como Carecas do ABC. Em 07 de dezembro de 2003 dois jovens foram obrigados a saltar de um trem em movimento devido suas roupas e cortes de cabelo tipo moicano. Três integrantes do grupo Carecas do Brasil, portando armas de estilo medieval obrigaram os dois a pular do vagão com uma sentença: “Ou pula, ou morre!”. Um deles sofreu traumatismo craniano e morreu depois de ficar oito dias na UTI. O outro sobreviveu, mas teve o braço direito amputado. No início deste ano foi criada dentro da rede virtual de relacionamentos Orkut, uma comunidade intitulada “Odeio Negros”. Como o próprio nome indica, trata-se de uma comunidade na qual seus membros expressam racismo e intolerância.

Movimentos neo-nazistas como os Carecas do ABC e os Carecas do Brasil pregam o nacionalismo, o conservadorismo de costumes e o culto à família e impõe sua forma de “pensar” através da intolerância e da violência. Cristin Goldberg não se conforma com a existência de grupos desse gênero, que acreditam em uma nova forma de nazismo e conseguem disseminar-se. Ela disse que a juventude “não precisa ser sangue de barata, permitindo a existência de grupos nazistas como o de Osasco”. Durante sua palestra, Goldberg contou o que sofreu em sua juventude, como lutou contra o regime opressor e, de forma emocionada, como ama a pátria que a acolheu, o Brasil.

Na prisão, Goldberg conta que em meio a “sopa” oferecida aos prisioneiros, algumas vezes vinha carne... de rato! Cristin chegou a ficar na fila para a câmara de gás. Relata que nesse momento, levou uma bofetada de um soldado, caiu no chão e foi chutada por ele, que a prendeu em uma cela. Desta forma inusitada, foi salva da morte. Credita sua sobrevivência ao seu “padrinho”, Deus. Só através dele “o bem vence o mal”, afirmou.

Cristin traça um paralelo da situação pós-guerra Alemã e o Brasil, cuja situação revela alto índice de desemprego e falta de dinheiro, mesmo tendo um povo trabalhador. É para evitar a disseminação de ideais semelhantes aos propagados pela ideologia nazista, que ela torna pública sua história, através de palestras e de seus livros, mesmo que isto traga à sua memória recordações terríveis. Mas também chega a uma conclusão: “Nazismo é um câncer que se espalhou pelo mundo. Não tem cura!”.

A motivação inicial de Goldberg e do grupo que se reunia à noite em uma marcenaria era a liberdade e a democracia. Para isso, tiveram que aprender a lutar. Por outro lado, o regime criava o ideal da Juventude Nazista através, por exemplo, da Napola, um conjunto de escolas para estudantes entre 10 e 18 anos. Em 1941 havia 32 escolas, onde 6.000 estudantes eram educados como Nacionais Socialistas (Nazis), eficientes em “corpo e mente”, para servirem o povo e o Estado. Goldberg conta que “as crianças marchavam pela manhã e à noite e ganhavam boa alimentação”. Dessa forma, passavam até a desobedecer aos pais, chegando até a traí-los, denunciando quando não eram a favor do nazismo.

A sobrevivente lembra da importância de um simples canivete. Além de protegê-la em algumas situações, chegou a fazer, com ele, uma cesária e a tirar balas do corpo de pessoas. E afirma: “Os maiores heróis foram as mulheres”. Para exemplificar, conta que mães judias cantavam enquanto estavam na fila da câmara de gás, com seus filhos no colo.

Ao trazer as marcas de um período trágico, Cristin Goldberg desperta nos jovens o sentimento da necessidade de “se fazer algo” contra movimentos como os neo-nazistas. É impossível manter-se passivo após ver e ouvir o que esse tipo de ideologia fez a seres humanos, independentemente de sua raça, cor ou opção sexual. Cabe ao jovem e também aos formadores de opinião, como professores e jornalistas criar um fórum de discussão para que a apatia seja colocada de lado, e até mesmo uma certa postura individualista e egoísta, e o passado seja revisto e analisado, para que erros não voltem a ser cometidos.


A INTOLERÂNCIA SOBE AO PODER
Colaboração: Prof. José de Almeida Amaral Jr.

Ao fim da 1ª Guerra Mundial, o Tratado de Versalhes impôs severas e humilhantes punições à Alemanha. O país teve perda territorial e seu exército foi desarmado e reduzido. Além do mais, foi proibida de fabricar armamentos e foi obrigada a efetuar pagamento de pesadas indenizações de guerra à Grã-Bretanha e à França. Provavelmente reside aí o nascimento de um nacionalismo radical no curto período que antecedeu a 2ª Guerra.

Para entender este período pré-guerra, é preciso conhecer a história do Partido do Trabalhador Alemão na Baviera, fundado em 5 de janeiro de 1919. Hitler se associou ao partido em setembro seguinte, e tornou-se seu principal orador. No ano seguinte o grupo adotou o nome Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP) e definiu seu programa político, marcado pelo anti-semitismo, extremo nacionalismo e críticas ao capitalismo internacional. Em um período de 3 anos o partido cresceu de forma significativa.

Em 1923, após uma tentativa frustrada para depor o governo republicano da Bavária através de um golpe, Hitler foi preso. No período de nove meses em que esteve na prisão escreveu Mein Kampf (Minha Luta), que resume a ideologia do Nazismo, creditando a situação da Alemanha à diversidade racial do Império Austro-Húngaro, a mistura de raças, a corrupção da democracia e do liberalismo e a ação política de judeus e comunistas. Para inverter a situação do país, Hitler defende o isolamento racial (crença em uma suposta “raça ariana” superior), a centralização do poder, um estado militarista e intervencionista na economia, e a intolerância com a diversidade ideológica. O livro traz ainda lições sobre o comportamento psicológico das massas e como conquistá-las.

Embora fosse até ridicularizado no início, o partido (e o discurso nazista) cresceu devido ao aumento do empobrecimento da população. Candidato à presidência, Hitler não conseguiu eleger-se em 1932, mas o vencedor, Paul von Hindenburg, o nomeou chanceler no ano seguinte (com o apoio de mais de 1,5 milhão de adeptos). Hitler, então, dissolveu o Reichstag, a câmara baixa do parlamento alemão, e convocou novas eleições. Em 27 de fevereiro de 1933, após um incêndio no prédio do Reichstag, Hitler acusa os comunistas e adquire poderes ditatoriais em março, com o apoio popular. Acompanhado de outros nazistas como Goering, Himmler e Goebbels, passa a perseguir toda a oposição, além de minorias étnicas e religiosas.

Em 1934, o parlamento alemão vota a favor da concentração das funções de presidente e de chanceler. As forças armadas passaram a prestar-lhe juramento como Führer (líder ou guia). Nascia o III Reich. Hitler conseguiu dinamizar novamente a economia. Seu regime impôs uma combinação extremada de capitalismo e socialismo estatal, em que tanto os proprietários de grandes empresas como os operários se subordinavam ao controle do Estado e ao poder público totalitário. São criadas as Leis de Nuremberg, para discriminar os judeus, tornando o anti-semitismo política oficial da Alemanha. Além dos violentos grupos paramilitares, Hitler apoiava-se em uma eficiente máquina de propaganda. A partir de 1936, surgem leis contra negros, judeus, homossexuais e ciganos. Professores judeus são expulsos das universidades e pouco a pouco os alunos também. Os alemães são proibidos de comprar em lojas de judeus e judeus são proibidos de entrar nas lojas alemãs, restaurantes, cinemas, teatros, museus e exposições. É promulgada uma lei que obriga o uso da estrela amarela (Estrela de Davi) costurada nas roupas ou em tarjas nos braços, para diferenciar os judeus. A humilhação contra os judeus é intensificada.

Desde 1934, judeus que conseguiam emigrar deixavam para trás bens, amigos e pátria. Mas outros permaneciam, ou acreditando que o nazismo seria derrotado, ou por não terem dinheiro para comprar a passagem, tirar passaporte e visto. Por outro lado, alemães, em sua maior parte intelectuais, não concordam com a situação, chegando a apoiar judeus e minorias perseguidas. Mas isso não impede que milhões de pessoas sejam confinadas em campos de concentração e muitos deles sejam mortos - o que veio a ser conhecido como Holocausto.

No que se refere à política externa, em 1938 a Áustria é anexada. Não prevendo o que ainda estava por vir, Grã-Bretanha e a França assinam o Pacto de Munich, cedendo a região dos Sudetos, então território da Tchecoslováquia, para a Alemanha. O Primeiro Ministro da Grã-Bretanha, Neville Chamberlain chega a afirmar, em Londres, que com isso teria conseguido a paz. Enquanto isso, Hitler alia-se com o italiano Benito Mussolini e com o espanhol Francisco Franco, a quem ajudou na Guerra Civil Espanhola. A Áustria foi absorvida pelo "III Reich" e a Tchecoslováquia foi desmembrada. O governo comunista de Josef Stálin, da URSS, assinou com Hitler, em 1º de setembro de 1939, um pacto de não agressão, o que permitiu a invasão da Polônia.

A Alemanha forma com a Itália e Japão uma coalizão (o Eixo). Inglaterra, França e Rússia constituem-se os Aliados, posteriormente com a participação dos EUA e de outras nações, inclusive o Brasil, sob o governo do Estado Novo de Getúlio Vargas. Depois de algumas vitórias iniciais, a Alemanha vai sendo sufocada pelos Aliadose, que em 1944 ficam em franca vantagem. Mesmo perdendo, Hitler continua a lutar, o que leva alguns militares nazistas a tentar assassiná-lo. Em 30 de abril de 1945, Adolf Hitler suicida-se num bunker (uma fortaleza) em Berlin, junto com sua mulher Eva Braun.

Com a capitulação das tropas alemãs, em 8 de maio de 1945, terminou na Europa a Segunda Guerra Mundial. Nos dias 6 e 8 de agosto foram lançadas duas bombas atômicas, respectivamente sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki. O término oficial do conflito deu-se, então, em 15 de agosto daquele ano, quando o Imperador Hiroito anunciou a capitulação do Japão.

Marcelo Rezende

O “Contador de Histórias”
Fábio Davidson (junho/2004)

O frio era de matar... Mas, enquanto um “fog londrino” caia fora do auditório, dentro o clima esquentava. Foram mais de duas horas de bate-papo e, para quem estava quase que totalmente afônico, a voz só apareceu para revelar aquele que gosta de “contar histórias”. Está é, na opinião de Marcelo Rezende, a função do repórter. Uma das muitas opiniões – para uns, “ácidas”, para outros, “sinceras” –, daquele que entrou no jornalismo por acaso, graças a uma visita à redação do “Jornal dos Sports”, em 1969, no Rio de Janeiro. Nessa época, tinha 17 anos, era estudante de mecânica e visitava um primo que ali trabalhava.
A “visita” já dura 35 anos!!! Em 1970, tornou-se repórter esportivo na Rádio Globo, depois passou pelo jornal “O Globo” e pela revista “Placar”. Ainda na área de esportes, tornou-se editor na TV Globo, em 1987. No ano seguinte cobriu a morte do empresário José Carlos Nogueira Diniz, dando início a uma série de reportagens investigativas. Quem não se lembra do caso dos policiais da Favela Naval, do seqüestro de Roberto Medina, da investigação sobre a Comissão Nacional de Arbitragem (caso Ives Mendes), da máfia dos CDs piratas na China, do desvio de verbas na CBF ou da entrevista exclusiva para o “Fantástico”, com o “Maníaco do Parque”? Esta última, como Rezende contou durante o bate-papo promovido pelo Ijor (Instituto Livre de Jornalismo), foi o embrião para o programa “Linha Direta”, na Rede Globo. Depois de sair da Globo, o jornalista passou pela Rede TV e desde 1º de março deste ano apresenta o telejornal “Cidade Alerta”, na Rede Record.
Oito e meia da noite e Marcelo Rezende já avisa que não sabe se vai agüentar muito tempo. É fácil notar a sua falta de voz. Mas depois que começa a falar, não para mais. Toma os goles de água como se municiasse uma metralhadora. Inicia com uma “boa notícia” para os estudantes de jornalismo: “O emprego mais fácil de conseguir é o de repórter de televisão!”. O ar de surpresa é geral. Ele explica: “Não há bons repórteres na televisão, são raros. A TV quer jovens com boa aparência. [E] os repórteres querem buscar o impacto, o reconhecimento, não buscam mais gerar um vínculo”.
Marcelo Rezende credita sua audiência na “nova casa” à sua credibilidade, pois crê que o público o acompanhe por acreditar em seu passado como repórter que investiga, “vai a fundo’, ao contrário dos novos repórteres, que “querem tudo pronto, se acham importantes não pelo que fazem, mas pelo tempo de casa que têm”. Tal atitude faz com que se crie um egocentrismo exacerbado, fazendo até com que menosprezem os companheiros. “O ego na televisão não comporta o espaço físico”, diz Rezende, que afirma estar na sua humildade um dos segredos sucesso não subir na sua cabeça.
Outra observação feita pelo apresentador do “Cidade Alerta” foi a de que “o Jornal Nacional só dá audiência na Globo. Se fosse colocado na Record, não dá nem 5 pontos”. Segundo ele, a Record tem nível técnico comparável com a Globo, mas o diferencial não está na linha editorial. “O grande problema é que os repórteres não buscam as notícias nas ruas, ficam esperando elas chegarem pelas diversas vias que existem atualmente. Aí fica tudo igual! Faltam na TV dois tipos de visão. O 'garimpeiro' e o 'ourives.” Marcelo refere-se às formas de se ver uma notícia. O garimpeiro seria aquele que vai investigar, procurar, enquanto que o ourives vai lapidar a notícia, mostrar sua beleza ao público (e aqui não se deve entender camuflar, mas revelar).
Ainda com relação ao ego que nasce naqueles que conseguem entrar na TV, o jornalista recorda-se que “para que os repórteres entendessem a necessidade de se fazer uma pauta, tive que demitir dois”, quando trabalhava na Rede TV. Nestes três meses que está na Rede Record, afirma que não viu sair das mãos dos repórteres mais do que quatro pautas.
Marcelo Rezende acredita que o jornalismo de televisão está velho, cansado. Afirma que suas reportagens levavam de 3 a 8 meses de investigação, em média. Depois, o segredo estava em “como contar a história. O jornalista é um contador de histórias”. Mas diagnostica: há uma carência de bons profissionais e de uma diferenciação na linguagem. Perguntado sobre a “guerra da audiência” entre a Record e a Band, que possuem telejornais em formatos semelhantes (além do mais, o apresentador da Band é o antigo apresentador da Record...), Rezende respondeu: “Você pode ter um adversário, mas não um inimigo”. Um exemplo que lhe foi fornecido foi uma “briga” ao vivo entre a repórter Patrícia Calderón (Record) e Edie Pólo (Band), na sexta-feira depois do feriado de Corpus Christie, na busca de declarações de um limpador de fachadas que ficou preso na lateral de um prédio em São Paulo. O apresentador do “Cidade Alerta” mandou parar a entrevista e cortar para o estúdio, além de “passar um pito” na repórter de sua emissora “no ar”, fato, aliás, recorrente em suas apresentações. “Neste caso”, diz ele, “o repórter da outra emissora chegou primeiro e preparou a entrevista. Cabia à nossa repórter aguardar. Por isso mandei parar. (...) Estou casado disso. Disputa-se a mesma coisa para não levar a lugar nenhum.”
Já eram quase onze horas da noite. A voz do apresentador não respondia mais. “Acho que não vou trabalhar amanhã...”. Assim encerrou-se mais um dos “Encontros com Repórteres”, no último dia 15 de junho, no auditório do SENAC da Rua Scipião, na Lapa. O evento é uma parceria do Centro de Comunicação e Artes do SENAC com o Ijor – Instituto Livre de Jornalismo. Mais informações: http://www1.sp.senac.br/hotsites/cca/ijor/index.htm ou pelo telefone (11) 3866-2500.

Eu moro na rua, não tenho ninguém...

Reportagem e fotos: Fábio Davidson (abril/2004)


A frase, tirada da música de Renato Russo  “Pais e Filhos” revela a situação de milhares de pessoas que (sobre)vivem nas ruas, principalmente nos grandes centros urbanos. São Paulo tinha 8.706 pessoas em situação de rua no ano 2000, número que cresceu para 10.394 em 2003, segundo estudo realizado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), divulgado em 05 de novembro de 2003 pela Secretaria Municipal de Assistência Social.
Deste total, 84% são homens, 65% têm entre 26 e 55 anos, 92% têm a educação básica e mais da metade vive só. Ainda em situação de rua, a pesquisa aponta que o número de pessoas vivendo em albergues aumentou 70% de 2000 até hoje. O censo de 2000 apontava 3.693 albergados, enquanto hoje são 6.186.
Atualmente, a cidade tem 6.500 leitos em 33 albergues, número considerado ideal pela Secretaria. A secretária municipal de Assistência Social, Aldaíza Sposati, afirmou em entrevista ao jornal Diário de São Paulo de 06/11/2003, que acredita que “o município não deve ter uma cama para cada morador de rua”. A secretária destacou que o que deve ser feito é a criação de saídas para que eles mudem sua situação. “A solução é o trabalho e a retomada da auto-estima”, disse. Outro ponto levantado por Aldaíza é o de que a maior parte das pessoas que mora nas ruas recusa-se a ir para o albergue.
Quanto à população feminina nas ruas, segundo a pesquisa, entre 2000 e 2003 houve uma queda no número de mulheres que vivem nas ruas, ao mesmo tempo em que aumentou sua presença nos albergues. Para a secretária, as mulheres vão menos para as ruas porque ficam em casa com os filhos. Em 2000, eram 930 mulheres nas ruas e 372 albergadas. Agora, são 648 nas ruas e 767 albergadas.
A pesquisa da Fipe indica ainda que 60,2% dos entrevistados já haviam sofrido algum tipo de violência – 30,6% foram agredidos pelos próprios moradores, 22,8% por transeuntes e 13,3% por policiais. Quanto ao tipo de agressão, 52,2% sofreram espancamento, 29,7% receberam facada, tiro ou pauladas e 26,5% foram vítimas de roubo ou furto.
O ponto central do debate a respeito das pessoas em situação de rua é como fazer com que elas saiam de uma situação de exclusão e consigam recuperar em primeiro lugar a auto-estima, para conseguir lutar na (difícil) busca de um emprego e resgatar sua dignidade. Há nesse percurso uma linha tênue entre gerar dependência (postura assistencialista) e tornar as pessoas autônomas. Este é o diferencial de diversas entidades espalhadas pela cidade de São Paulo, algumas com iniciativas semelhantes e outras originais como a Revista OCAS.

Integrar é preciso
São quase oito e meia da manhã. Muita gente ainda está dormindo, afinal é um domingo e amanheceu com uma garoa que dá aquela vontade de não sair de casa. Mas na frente de uma igreja desativada no bairro da Pompéia, uma fila estende-se a partir da porta. A maior parte das pessoas ali não tem casa. Moram na rua e, na melhor das hipóteses, passaram a noite em um albergue da Prefeitura. Este é um lugar em que nenhum deles tem boas lembranças. “Albergue é terrível”, diz A.D.S., 40, que não gosta de dormir em albergue pois “tem horários fixos e as pessoas tratam mal. Somos obrigados a acordar às cinco e meia da manhã e temos de sair para a rua”.
A.D.S. não quer seu nome divulgado não porque tenha medo, mas sim vergonha da sua situação e do preconceito. Veio de Brotas, na Bahia em 1985, na busca de uma vida melhor. Trabalhou como garçom, em bancos, contrariando outras histórias de vida daqueles que migram para São Paulo. Faz seis meses que freqüenta diariamente o Projeto Integrarte, trabalho conveniado com a Prefeitura Municipal de São Paulo.
“Sopão” – Nove anos atrás, um grupo de pessoas que freqüentavam uma igreja no bairro da Pompéia sentiu o desejo de ajudar de alguma forma pessoas carentes da região. Passaram a fazer um trabalho conhecido como “sopão”. Uma ou duas vezes por semana o grupo ia com um carro e distribuía uma sopa, que era servida em caixas de leite longa vida embaixo do viaduto Pompéia. Com o passar do tempo o grupo percebeu que alimentava os corpos daquelas pessoas, porém elas continuavam da mesma forma semana após semana. Continuavam sujas, sem a mínima higiene e sem motivação alguma. Então resolveram levar as pessoas para a igreja (Igreja Evangélica Projeto Raízes), onde podiam desfrutar de um banho, refeição e troca de roupa, além de contar com serviço médico, odontológico e psicológico, ofertado por profissionais liberais voluntários. Eram cerca de 40 voluntários servindo mais ou menos 15 pessoas.
Como o grupo atendido cresceu muito, o espaço provisório tornou-se inadequado e em 1996 foi inaugurada a nova sede, com instalações e recursos mais adequados para um melhor atendimento, que continuava sendo feito das 13 às 22 horas. “Havia pouco tempo útil para trabalhar com as pessoas, muitas delas chegavam alcoolizadas”, nos conta Rita de Cássia dos Anjos Ono, 43, coordenadora do Projeto. Então se decidiu mudar o horário de atendimento, passando a atender a partir das 8 horas da manhã. Essa mudança, porém, trouxe um inconveniente: os profissionais liberais voluntários deixaram de prestar assistência, devido à incompatibilidade de horário. Mas o benefício valeu a pena, uma vez que durante a noite havia dificuldade para encaminhamento médico, para providenciar documentos, etc. O resultado foi o crescimento do grupo atendido, que hoje gira em torno de 120, que ali encontram alimentação, banho e vestuário; acompanhamento psicológico; grupo de convivência (música, artesanato e teatro espontâneo); encaminhamento para cursos profissionalizantes e frentes de trabalho; auxílio na obtenção e guarda de documentos; encaminhamento para albergues; acompanhamento em hospitais e postos de saúde; assistência jurídica e terapia ocupacional.
“A cocaína me levou para a rua” – A história de A.D.S. só assemelha-se a dos outros que estão ao seu lado pois uma das coisas que o levou para a rua foi o vício. No seu caso, a cocaína trouxe, além do vício, o vírus HIV. A vergonha o fez pedir demissão do emprego. Todo o dinheiro que conseguiu com os direitos trabalhistas gastou com droga e álcool. A vergonha também o fez se afastar da família e dos amigos e por sua vez a doença fez a família e os amigos afastarem-se dele. Hoje não quer encontrar nenhum deles. O final foi a solidão e a rua. Como o dinheiro acabou, passou somente a beber. Comprava por pouco menos de um real a “barrigudinha”, famosa entre a população de rua. Trata-se, segundo ele, de ”uma garrafa de meio litro de cachaça sabe-se lá feita de quê, pura e forte”, vendida nos mercadinhos.
A.D.S. gosta do Projeto Integrarte, pois fica “mais escondido”, ao contrário de outros trabalhos do gênero. Acredita que não vai conseguir outro emprego, mas com uma indenização que pleiteia no INSS, pretende voltar para sua terra natal, “para morrer por lá”. No Integrarte, aqueles que chegam pela manhã podem tomar um banho, fazer a higiene pessoal, lavar a roupa e também entreter-se com uma televisão, jogos de mesa e leitura. Tomar banho e fazer a barba ajuda a diminuir o preconceito das pessoas na rua. “Quando alguém está mal vestido, com a barba por fazer e sujo, as pessoas se afastam”, diz A.D.S, “mas com a barba feita e roupa melhor, as pessoas ajudam mais”.
Em um tempo em que muito se fala sobre Responsabilidade Social, os trabalhos com pessoas em situação de rua não são beneficiados pela onda politicamente correta. “É difícil empresas quererem ajudar o morador de rua. São vistas como pessoas que não deram certo”, afirma Maria Diva Oda Joaquim, 44, também à frente do Projeto Integrarte. Diva e Rita são unânimes em constatar que as pessoas em situação de rua não são alcançadas pelos projetos de Marketing das empresas, que orientam sua atuação para áreas como ecologia ou trabalho com crianças, que trazem um maior retorno. “Ultimamente as doações das empresas diminuíram muito. Mas aquelas que tem doado são empresas que não estão preocupadas em fazer propaganda”, diz Rita.
Um dado interessante é a mudança no perfil da pessoa em situação de rua. Segundo Rita, “antes era o mendigo, sujo, maltrapilho. Hoje esse tipo de população está mais apresentável”, um aspecto que se deve talvez ao fato de que muitas dessas pessoas têm conseguido obter uma pequena renda através da coleta de material reciclável.
Hoje a Prefeitura é responsável por 85% da receita do Integrarte e os outros 15% restantes são provisionados pela Igreja, sendo que uma pequena parcela vem de doações espontâneas. Outra parceria é feita com Postos de Saúde da região, difundido programas de detecção e prevenção de tuberculose e do vírus HIV, além da distribuição de preservativos. Há também um trabalho com dependentes químicos.
Um fato que é observado no trabalho realizado é o aumento do número de idosos que freqüentam o local. Tal fato se deve ao baixo rendimento – alguns são aposentados e recebem apenas um salário mínimo. O dinheiro tem que ser destinado para conseguir um lugar para morar ou para comer. Então eles alugam um local e alimentam-se no Integrarte.
Rita e Diva acreditam que há uma visão equivocada do trabalho com a população de rua. “Muitos acreditam que o problema principal é o desemprego”, diz Rita. Mas, segundo ela, a pessoa que está na rua geralmente já passou por um processo de profunda depressão, dependência química e perda dos vínculos afetivos. Desta forma o primeiro passo para melhorar a situação destas pessoas é recuperar sua auto-estima. Os números refletem que o índice de recuperação é baixo, então o que motiva alguém a trabalhar por estas pessoas? Rita conclui que “com o tempo conseguiu descobrir que há níveis de recuperação. Ou seja, é uma vitória quando uma pessoa suja e maltrapilha passa a querer tomar banho, preocupa-se em alimentar-se, consegue conviver socialmente e pede tratamento. Mas o máximo da recuperação é que a pessoa consiga retomar a vida, ter um emprego, família”. Diva complementa, afirmando que “uma coisa é vir uma vez por semana, como fazem as pessoas que querem ser voluntários. Outra é conviver com esta realidade todo dia. Em primeiro lugar é preciso enxergar as pessoas em situação de rua como iguais. E também é necessário ter amor pelo trabalho. Ninguém que trabalha por obrigação consegue agüentar muito tempo, além de fazer um trabalho ineficiente”.
O Projeto Integrarte fica na Rua Mundo Novo, 94 - Pompéia e contatos podem ser feitos pelo telefone 3675.1758. Na Internet, confira o site a Associação Projeto Raízes, mantenedora do Projeto Integrarte. Confira, abaixo, um vídeo institucional:


Minha Rua, Minha Casa
A Liberdade está ao lado. Mas ao mesmo tempo, muito distante da vida destas pessoas. Liberdade com “L” maiúsculo, pois se trata de um bairro da cidade de São Paulo. O bairro ao lado é o Glicério. Desapercebido dos olhares e do conhecimento de muitos que passam por ali diariamente com seus automóveis, embaixo do viaduto do Glicério, Rosana Baêsso, 38 anos, é uma das coordenadoras e está de “segunda a segunda” trabalhando com as pessoas em situação de rua. A Associação Minha Rua Minha Casa nasceu a partir de um trabalho realizado pelas irmãs obratas, que em 1978 passaram a auxiliar as pessoas que se reuniam embaixo do viaduto para compartilharem alimento, no caso, sopa. As irmãs inicialmente acompanhavam o movimento, que nasceu das ruas. Com o tempo passaram a desenvolver trabalhos, através da Organização de Auxílio Fraterno (OAF), que atua desde 1955 em favor da população adulta de rua.
Francisco Chagas Vieira tem 31 anos e já está em uma fase melhor de vida. Participa de um Grupo de Geração de Renda, recebendo uma “bolsa” para pagar o aluguel em uma moradia provisória. Este programa do governo dá um tempo de 6 meses a 1 ano e 2 meses para a pessoa reestruturar sua vida e conseguir estabelecer-se em um lugar melhor. Francisco passou dois anos morando em albergue, mas lá “não conseguia um emprego, pois ninguém dá emprego para quem mora em albergue”. Veio de Campina Grande, Paraíba, em 1988, trabalhou como porteiro, pedreiro, eletricista, “um pouco de tudo”. “Até os 26 anos tudo ia bem”, diz Francisco, “mas acabei me envolvendo com drogas, bebidas, mulher”. Com isso teve de abandonar o lar, sua mulher, uma filha de dez anos e a casa de três cômodos que tinha em Carapicuíba. Francisco lembra que “só queria saber de forró” e depois de um ano envolvido com drogas, perdeu o emprego e em 1999 foi parar na rua, onde ficou pouco tempo, pois passou a freqüentar os albergues – passou por vários – da Prefeitura.
Francisco chegou a morar um tempo com o irmão, mas a convivência com a família do irmão ficou muito difícil “por causa do álcool”. O trabalho no Minha Rua, Minha Casa o tirou do álcool e agora anda “de cabeça erguida”. “Quero arrumar uma casa, sair da moradia provisória, e arrumar um bom emprego”, afirma ele, que é um associado do trabalho, auxiliando nas tarefas do dia-a-dia.
As dificuldades de Francisco e tantos outros são muitas, como também do Minha Rua, Minha Casa. Na gestão do prefeito Jânio Quadros tentou-se fechar a região embaixo do viaduto, mas foi impossível paralisar o trabalho. Em 1994 o projeto passou a tomar forma, com a construção de um Centro de Convivência no mesmo local, contando para isso com a ajuda de empresários, que ofereceram uma proposta de parceria para trabalho conjunto, a partir do Pensamento Nacional das Bases Empresariais (PNBE). O trabalho oferece acompanhamento psicológico, cuidados pessoais, prevenção do uso de álcool e drogas, alimentação, atividades culturais e sócio-educativas, contando com a ajuda de uma equipe técnica de 9 educadores e cerca de 40 voluntários, que prestam serviços duas vezes por semana. O local não dispõe de albergue e tem uma cooperativa de reciclagem e aproveitamento de móveis usados.
Fala Cidadão – Um diferencial é uma “rádio” montada no local e operada pelas próprias pessoas que são atendidas ali. A “Rádio Fala Cidadão” funciona com uma caixa de som que leva ao ar, às quartas-feiras e sábados, uma programação variada. Antonio Andrelino Soares Neto, 30 anos, é “locutor” da rádio há cerca de um mês. Neste sábado a rádio tinha em sua programação: “Tardes Paulistanas”, das 14h às 14h30; “Nordeste Caboclo”, das 14h30 às 15h; “Black Love”, das 15h às 15h30; e “Diversidades Musicais”, das 15h30 às 16h. Uma mesa de oito canais, um microfone em situação precária, um toca-discos (quebrado) e um discman fazem de Andrelino locutor por meia-hora. “No começo ficava com vergonha, mas com o tempo a gente vai se soltando”, diz Andrelino, depois de completar sua tarefa e fechar a “rádio”. Os equipamentos foram doados em julho de 2002 e, com o tempo, as pessoas foram mobilizadas no sentido de formar a rádio, um movimento inverso das atividades da Associação, que procura atender às iniciativas das pessoas.
Rosana está envolvida com o Minha Rua Minha Casa há dez anos. Foi bancária e sempre esteve envolvida com projetos sociais, o que a fez optar pelo curso de Serviço Social. Trocou o Banco pelas ruas. Acredita que o governo tem participado na formulação de projetos. “A primeira gestão que se preocupou com as pessoas em situação de rua foi a da prefeita Erundina”, informa Rosana. “Foi feito o primeiro censo e o desenvolvimento das casas de convivência”, continua ela, destacando a principal divergência no foco dado pelos governos: a questão da “dependência ou autonomia”, que poderia ser resumida em “dar o peixe ou ensinar a pescar”. Rosana destaca, porém, que o índice de pessoas que deixam as ruas e retomam a sua vida é muito pequeno.
Entre os principais problemas enfrentados pela Associação, que tem capacidade para receber 350 pessoas durante o dia, está o excesso de barulho produzido pelos veículos. Segundo Rosana, não há perspectiva de mudanças, mas sim para um melhor isolamento acústico do local. Com ou sem barulho, ali as pessoas encontram pessoas interessadas no convívio e não no assistencialismo. Quem chega ali pode tomar um banho, ler uma revista, utilizar uma área de recreação, com mesa de ping-pong, jogos de mesa, além de alimentar-se, sempre em esquema de mutirão, com a participação de funcionários, voluntários e a própria população de rua.
O espaço que foi cedido em comodato pela Prefeitura Municipal de São Paulo fica na rua Dr. Lund, 361 (embaixo do viaduto Glicério) e o telefone para contato é o 3271-8718. O escritório da associação fica na rua Major Quedinho, 111 - 21° andar (telefones: 3255.7264 e 3231.5204). Na Internet, acesse: http://www.minharuaminhacasa.hpg.ig.com.br.

Revista OCAS
A revista é uma iniciativa diferenciada na finalidade de inclusão social das pessoas em situação de rua. É uma publicação mensal, com temas culturais, políticos e sociais. A venda é feita exclusivamente nas ruas, por populações sem moradia ou que vivem em condições precárias. Os vendedores recebem uma credencial, uma área de venda e exemplares gratuitos para iniciar o trabalho. Depois, compram cada exemplar por 25% do valor de capa e ficam os 75% restantes. Atualmente a publicação é vendida por R$ 2,00, e desta forma R$ 1,50 fica com o vendedor.
O nome da revista vem da sigla de Organização Civil de Ação Social e foi fundada em 21 de abril de 2001. Além da revista, acompanha o trabalho dos vendedores e busca parecerias para prestação de serviços habitacionais, educacionais e de saúde aos participantes do projeto. A experiência é similar às ocorridas no exterior, onde mais de 40 publicações são filiadas à INSP (International Network of Street Papers - Rede Internacional de Publicações de Rua).
O centro de distribuição em São Paulo fica na rua Campos Sales, 86 – Brás (Tel 3208.6169). A sede fica na rua Sampaio Moreira, 110 – casa 9 – Brás (Tel 3311.6642). Internet: www.ocas.org.br.

De oficina de ônibus para “oficina” de vidas
Duas da tarde. A chuva cai torrencialmente em uma tarde de sábado e 45 pessoas estão em uma sala de cinema assistindo ao filme “Equilíbrio”. Alguns, atrasados, ficam de fora e pegam uma senha para assistir “Passageiro 57”, na próxima sessão. Parece uma cena banal do cotidiano, não fosse o local ser o “Cine Boracea”, dentro de um complexo de 17 mil metros quadrados, inaugurado em junho de 2003 na Barra Funda. Com capacidade para abrigar mais de 400 pessoas, faz parte do Projeto Boracea, idealizado para “carrinheiros” (catadores de papel e recicláveis), dispondo inclusive de um organizado estacionamento para carrinhos e canil para cachorros.
É um empreendimento polêmico, na opinião daqueles que trabalham em outras instituições que visam as pessoas em situação de rua que consideram o Boracea muito grande, dificultando o convívio, o relacionamento. O local do projeto era uma antiga oficina da CMTC (antiga companhia municipal de transporte coletivo) e permaneceu com o nome, que significa “alegria”, além de ser o nome da rua que fica atrás do terreno.
Apesar das críticas, é com um sorriso nos lábios e um olhar de sincera felicidade que Reginaldo Ferreira Batista, 46 anos, conta da mudança em sua vida de sete meses para cá, graças ao Projeto Boracea, segundo ele “o melhor projeto do Brasil”. Sua primeira mudança foi da Bahia para São Paulo, 34 anos atrás. A segunda foi ao chegar o Boracea. Na primeira, as coisas não deram tão certo como imaginava. Reginaldo é catador de papel e percorre as ruas do centro de São Paulo. Vivia na rua, brigava, drogava-se, bebia muito. Classifica sua vida anterior com “podridão”. Não dormia em albergue, pois acha que “albergue é lugar para maloqueiro”. Morou em quartinho, favela, mas nunca pediu ajuda nem para assistente social. Mas foi justamente uma assistente social, através do padre da Igreja São Francisco, quem informou Reginaldo do Projeto Boracea, fazendo com que ele deixasse de viver embaixo do “Minhocão” e, com o passar do tempo, deixasse as drogas, a cachaça e parasse de brigar.
Reginaldo trabalha na região central e pode vender o produto que recolhe no próprio Projeto. Só essa semana iria tirar “uns R$ 150,00”, disse ele, mostrando os “vales” que guardava depois de pesar o material que trouxe. Com o dinheiro, quer abrir uma conta no banco, mas está esperando chegar sua certidão de nascimento da Bahia, para tirar os documentos, uma vez que todos que tinha foram roubados. “Mas vou esperar mais uns quinze dias para tirar o RG”, diz Reginaldo. Para que esperar? “Quero tirar assinando meu nome, não vai ser mais com os cinco dedos”, responde ele, feliz por estar aprendendo a escrever e a ler, em uma das classes do Boracea. Um dos parceiros na área de alfabetização é a faculdade Uninove.
Para Reginaldo, além da oportunidade de fazer dinheiro, um lugar para tomar banho, o Boracea “é um divertimento. Tem cinema, sala de TV, jogos, aulas de artes”. Para não perder isso tudo, é só seguir as regras determinadas quando a pessoa cadastra-se no Projeto, entre elas “não furtar, não brigar, não falar palavrão, não desacatar as autoridades”, e, segundo ele, quem faz estas coisas “não é humilde, não quer fazer parte da família que se forma [no Projeto]”.
Antes, não tinha perspectiva de futuro. “Só vivia com maloqueiro, bebendo, sem tomar banho, uma podridão. Hoje não consigo passar perto deste tipo de pessoa na rua, me sinto mal”, afirma ele. No Boracea, ele pode tomar café da manhã e jantar gratuitos e almoçar, pagando R$ 0,50. Para quem não é associado, o restaurante é aberto, cobrando R$ 1,00 pelo prato. As refeições passam pelo crivo de uma nutricionista.
Enquanto isso, a sessão do cinema já começou e as pessoas estão em silêncio, atentas ao filme. Há até um “lanterninha”, Luiz Lorenzo Del Pino Concha, de 36 anos. Luiz é chileno e trabalha há dois meses no Oficina Boracea, como educador sendo funcionário da Associação Evangélica Brasileira (AEB), parceira da Prefeitura no trabalho. “Procuramos ocupar as pessoas, para recuperá-las, tentando resgatar a auto-estima, despertar algum talento, como música, artes”, nos conta Luiz, que trabalha das 13 às 22 horas, cinco dias por semana, com uma folga durante a semana e um dia no final de semana. A AEB é uma das ONGs que trabalham no Boracea, e participa com dez funcionários. Luiz também dá aulas de espanhol, sendo que o Projeto oferece também aulas de inglês, pintura, desenho, bonecos, entre outras.
Luiz conta que por ali passam “todo tipo de pessoas, há idosos abandonados pela família e muitas pessoas legais e simpáticas”. Ele abandonou seu emprego como analista contábil para encarar o desafio de trabalhar inclusive “com pessoas que tem dificuldade em serem ajudadas, mas temos de procurar o que a pessoa tem de melhor e ressaltar. Nossa missão é educar”, afirma.
Nos primeiros dias, Luiz sentiu um choque, devido à dificuldade em “lidar com pessoas alcoolizadas, pessoas que não primam pela higiene e não descriminá-los, dar a mesma atenção a todos”.
Embora ligado a uma associação religiosa, Luiz afirma não ter uma religião, mas acredita em Deus. Destaca que não há ênfase em ensino religioso, mas sim a preocupação na recuperação das pessoas.
Outra parceria no projeto foi firmado com a UNISA (Universidade Santo Amaro), através de professores e estagiários em Veterinária, que trabalham na manutenção do canil. Segundo Maria Madalena Alves, 61, coordenadora do Boracea, não há uma estrutura para voluntários. Há a busca de profissionalização do serviço. São 180 funcionários, sendo 63 da Prefeitura e os demais das organizações que trabalham com áreas específicas, como idosos, artes, albergue, etc. “Se fosse uma única equipe para cuidar de tudo, algo poderia escapar. Como há várias equipes tratando de áreas específicas, o trabalho torna-se mais produtivo”, afirma Madalena.
Para a efetivação do projeto, empresas foram procuradas pela Prefeitura e atualmente há a Associação amigos do Boracea. Esta associação tem como objetivo apoiar financeiramente, inclusive captando apoio junto a outros empresários. Além do apoio financeiro, há outras formas dos empresários auxiliarem. Por exemplo, a Estapar fez o planejamento do estacionamento para os carrinhos.
Madalena afirma que cerca de 40 pessoas por mês deixam o projeto “com a vida resolvida”.
O Projeto Oficina Boracea fica na rua Norma Pieruceno Gianotti, 77, na Barra Funda.

Médicos Sem Fronteiras (RJ)
Na tentativa de melhorar a situação dessas pessoas, MSF deu início, em 2000, ao Projeto Meio-fio, que oferece assistência médica, social e psicológica a moradores de rua do centro do Rio de Janeiro. O acesso à saúde é garantido pela Constituição Brasileira; porém, devido à falta de documentos, falta de residência e/ou preconceito, os moradores de rua, muitas vezes, não são propriamente assistidos.
A ação de MSF se dá através de uma equipe multidisciplinar – entre os quais se encontram enfermeiros, médicos, assistentes sociais, psicólogos e educadores – diretamente envolvida com a realidade dos moradores de rua. O trabalho começa com a abordagem dos beneficiários na própria rua. A equipe do projeto avalia suas condições gerais de saúde, presta assistência primária e, dependendo do caso, encaminha-os para o sistema público de saúde. A idéia, entretanto, é que a abordagem também possa dar início a uma análise mais profunda e um levantamento de dados acerca da situação social e de saúde desses indivíduos. O cadastramento dos usuários do projeto possibilita a estruturação de um banco de dados. Munidos de informações específicas sobre o grupo – tais como o grau de escolaridade média, os motivos de ida para a rua, vínculos familiares, fontes de renda, anseios, etc. –, a equipe pode identificar as demandas das pessoas em situação de rua. Saiba mais em: http://www.msf.org.br.


O que diz a Lei
Segundo o Plano Diretor de Políticas Públicas da Prefeitura Municipal de São Paulo, Capítulo II, Seção V - Da Assistência Social, em seu parágrafo 5º, “são ações estratégicas relativas à população em situação de rua:
I - promover ações e desenvolver programas multisetoriais direcionados ao atendimento da população em situação de rua;
II - implantar unidades de atendimento desse segmento populacional;
III - promover o acesso da população em situação de rua a programas de formação, projetos de geração de renda, cooperativas e sistemas de financiamento;
IV - promover o acesso da pessoa em situação de rua que tenha retornado ao trabalho e se encontre em processo de reinserção social a projetos habitacionais desenvolvidos pelo Poder Público".
Como já informado, o número de leitos nos albergues seria suficiente para abrigar mais da metade da população em situação de rua, porém nem todas as vagas são preenchidas. Alguns dos fatores que afastam as pessoas destes locais são: a obrigação a seguir horário fixo, tomar banho, trocar de roupa e não beber.
Para melhorar o atendimento, a Secretaria Municipal de Assistência Social criou em junho de 2003 o Conselho de Monitoramento da População em Situação de Rua, com 19 membros, entre representantes do fórum de ONGs que trabalham com população de rua, de empresas de responsabilidade social, das secretarias do Trabalho, da Assistência Social, da Saúde e da Habitação, além de três usuários dos serviços.

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